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Leite de Rosas

O som do telefone veio me encontrar distraído, perdido em meus inconfessáveis pensamentos, afogado em tua visão imaginária, gravada na tela apagada da televisão. Finjo para mim mesmo que não, eu não estou ansioso pela sua presença. O corpo dá sinais de tensão que contrariam a minha improvável calma, esperando a hora de você finalmente entrar por aquela porta, sorrir e me abraçar. Atendo a tua ligação e sua voz tão doce me informa que já está subindo. Me pergunta se estou chateado pelo seu atraso. Como eu poderia estar? Você está chegando, daqui a pouco adentrará meu apartamento e seu semblante vai novamente iluminar minha sala de estar.

Quando você finalmente cruzar aquela porta e vier ao meu encontro, eu desviarei o curso de toda a minha vida, esquecendo de todos os problemas e das obrigações. Faremos movimentos ensaiados como em um balé, apenas para que o fluir do nosso cio nos banhe em um lago represado e nos deixe imersos em nosso amor. A cama estará enfeitada com flores, a mesma cama que, ao menos por algumas horas, será a nossa cama. Dois mil novos pecados serão inventados, firmando dois mil outros motivos para não deixar que você vá. Mas, ainda assim, te deixarei ir embora.

Mas se eu te pedir para que volte amanhã, como um monge estarei cuidando do teu altar, e novamente arrumarei  a nossa cama, esperando pelas novas horas com você. Amanhã, mais uma vez, como um súdito convocado à missão pela sua rainha, me dedicarei a apagar a  chama que arde no teu desejo urgente de ser satisfeita. Esquecerei teu nome e te chamarei de mil outros nomes diferentes, te darei mil adjetivos que, ainda assim, jamais serão capazes de te traduzir. Esquecerei a minha delicadeza de movimentos, que te encantou e seduziu até agora e me transformarei em um lobo voraz, para nos satisfazer em todos os nossos instintos. Sem que você perceba, como um ladrão, eu roubarei o teu cheiro de leite de rosas, que ficará cravado para sempre em meu travesseiro e aprisionarei tua alma ali para sempre. Mas, ainda assim, te deixarei ir embora.

Se a lembrança do teu corpo, se a reminiscência das tuas curvas, se o sonhar com tua presença, se tudo isto tiver que ser meu único consolo até que tudo aconteça novamente, que assim seja. Espero aqui, pacientemente a tua vontade, que a tua sede da minha fome, me faça, na urgência de uma tarde, novamente, o teu homem. Até amanhã.

Foste embora e a penumbra da minha sala não disfarça a imensa falta que você me faz. Até quando eu teimarei em não querer ter você aqui, todos os dias e todas as noites, se quando você vai eu fico só  e me sinto tão só de nós dois?

A cada dia que passa, percebo que é inevitável fugir de nós dois, que você é mesmo a minha cara-metade. O teu inteiro é a minha metade, e a tua metade será sempre o meu ponto final. Você é minha alma gêmea, meu eu em fêmea, meu prelúdio e meu prefácio, meu sussúdio e meu posfácio. Você é meu ensaio, eu sou o seu rascunho, eu escrevo do meu próprio punho e você passa a limpo no final. Amanhã, quando você vier novamente, não voltará mais. Ficará aqui comigo eternamente. A minha casa será a nossa casa, eu não consigo mais viver sem a sua presença. Vem viver comigo. 
(Baseado nos poemas "Leite de rosas" e "Cara metade", feitos para ela).

Para Oqueane Jessant, pelos oito anos de vida em comum.

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