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Dos discos improváveis: Grupo Gera - "Gera Samba" (1994)

Corria a segunda metade dos anos 80 e um grupo de amigos se reunia nas tardes de domingo no bairro praiano da Ribeira para batucar nas mesas e cantarolar cançonetas repetitivas de "samba duro" que aprenderam com seus pais. O samba duro está para o samba de roda assim como o hard rock está para o rock.

De dois, três amigos, o grupo foi crescendo e logo chegaram outras pessoas com instrumentos de corda. Alguém resolveu gravar aquele caos sonoro o mais próximo da forma como acontecia nas tardes do ensolarado bairro da periferia da Salvador. E assim era lançado, de forma totalmente independente, o primeiro disco do Grupo Gera, que ficou restrito aos frequentadores daquela domingueira. Com a gravação de um segundo e mais produzido lp, que trouxe o hit local "A  cordinha", o Gera entrou na mira das grandes gravadoras.

Foi com a gravação de "Gera Samba", terceiro lp, de 1994, que a saga da banda de Beto Jamaica e Compadre Washington se tornou possível.  Para este disco, organizou-se um grupo de apoio fixo e shows nas grandes casas da cidade, com produção caprichada e lotação sempre esgotada. O Grupo Gera só estouraria de fato com o disco seguinte, "É o Tchan" e com a mudança oficial de nome para Gerasamba. Em 96, após um embate judicial pelo novo nome, a banda passa a se chamar "É O Tchan". A esta altura, o samba de roda era apenas uma vaga lembrança dos primórdios do grupo, que agora tinha duas dançarinas e o rebolativo bailador Jacaré na formação.

"Gera Samba" é um disco que soube envelhecer muito bem. A qualidade de gravação sofrível, que antes era um ponto negativo, com o passar do tempo se tornou um charme a mais em um disco delicioso, cheio de refrões ganchudos e do melhor samba de roda e samba duro gravado nos anos 90.

O lado A começa com "Cirandinha", basicamente um pout-porri de sambas de roda unidos por um refrão que insiste em grudar na memória. "Eu Amo Amar Você" é um pagode mauricinho classudo, com uma belíssima melodia, feito sob medida para tocar no rádio da época. "Piolho" é samba duro no talo. "Xodó de Mãe" é um samba de roda com uma rica melodia em tons menores, desde sempre a minha preferida do disco e da banda. "Apague a Luz Aí" segue com a mesma fórmula do "Pout-Pourri de Samba Duro" que encerra o primeiro lado do disco.

Do outro lado, "Mentirosa" segue a trilha do samba-duro enquanto "Despertar Pro Tempo" surpreende pela letra existencialista e melodia preguiçosa que evoca tardes mornas na praia.  'Temperou" é mais uma colagem irrepreensível de samba de roda e "Lero lero" e "Rala Coxa" encerram o disco com qualidade mas sem grandes surpresas.

O grupo seguiria inundando as paradas de sucessos nos anos seguintes, com a mistura de axé-music e samba-reggae que se tornaria sinônimo do novo nome e nova proposta musical.  O sucesso desmedido os levou até mesmo ao festival de Montreaux, na Suíça. Infelizmente, o samba de roda e o samba duro da Bahia não foram na bagagem da banda e perdeu-se uma boa oportunidade de engrandecer a música baiana.

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