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Os caprichosos da folia.

Este ano a escola de samba carioca Caprichosos de Pilares teve como tema de seu enredo, "todos os gringos do samba", representados pelo jogador de futebol sérvio Petkovic. A escolha do tema é reveladora: Se antes exportávamos jogadores para o mundo, hoje mais os acolhemos. Pet, como é carinhosamente chamado pelos seus admiradores, também fez uma declaração curiosa a respeito da homenagem que recebeu. Se disse encantado com a escolha de seu nome e afirmou estar perfeitamente adaptado ao país, porque, assim como os sérvios, "o brasileiro também não gosta de trabalhar". A afirmação do jogador também é reveladora.

O desfile da Caprichosos de Pilares foi considerado pelos especialistas um completo desastre. Sem dinheiro, a escola entregou fantasias incompletas, carros alegóricos inacabados, deu calote nos funcionários encarregados de puxar os veículos e ultrapassou em 4 minutos o prazo máximo para passar pela Marques de Sapucaí. A escola de samba, a esta altura, pensa apenas em se manter na série A e não tem nenhuma esperança de levar o título deste ano. Mais uma vez, é revelador.

Em Portugal, o primeiro ministro Costa Passos resolveu dar, este ano, "tolerância de ponto" na terça-feira de carnaval. Tolerância de ponto é o nosso velho e bom "ponto facultativo". Desde 2012 que o carnaval, naquele país, se restringia ao fim de semana. Na segunda e na terça, todos voltavam aos seus afazeres diários. Ainda que se retomem as comemorações à terça, como quer Costa, na segunda-feira todos ainda trabalham por lá. E é assim no resto do mundo. O único país com uma semana de carnaval no calendário é o Brasil.

Pet tem razão, o brasileiro, definitivamente, não leva o trabalho a sério. Atendentes de loja são descuidados no atendimento, garçons displicentes no serviço que prestam, pequenos empresários não fiscalizam a qualidade dos serviços que oferecem e das mercadorias que vendem. O que é regra lá fora, aqui é exceção. Quando uma empresa qualquer, a GVT, operadora de telefonia fixa, por exemplo, presta um serviço diferenciado, logo se sobressai. Mas, também, logo se torna "mais do mesmo" e é quase que obrigada a diminuir a qualidade dos serviços que presta para se adequar ao resto das empresas do ramo.

Mas, o carnaval, o brasileiro leva muito a sério mesmo. A alegria, a altivez, a concentração, a seriedade com que o habitante de Pindorama trata as coisas do entrudo, é evidente. E o carnaval deste ano, em particular, é o carnaval da zyka. Não a da saudosa D. Zica da Mangueira, esposa do sambista Cartola, quem dera que fosse. 2016 marca o ano em que estamos à frente de uma das maiores epidemias de uma doença a nível mundial, e o Brasil é o "ponta de lança" disto tudo. Enquanto Barack Obama, presidente dos EUA, implora ao congresso norte-americano por suporte financeiro para combater a doença por lá, aqui, comemoramos o carnaval como se nada estivesse acontecendo.

Para o Brasil, não jeito algum a ser dado. Imagino que, se um dia ocorrer o apocalipse, ainda assim os brasileiros não deixarão de comemorar o carnaval. Se o acidente de Chernobyl tivesse ocorrido no Brasil, provavelmente, haveria carnaval naquela região. Se Fukushima estivesse aqui, certamente, haveria carnaval nas proximidades do local. Estou exagerando? Haverá carnaval este ano na cidade de Mariana, palco do maior desastre ambiental do século XXI. 

Quarta-feira de cinzas é amanhã. O país volta ao normal, o ano finalmente começa, pelo menos até a próxima micareta. Gente folgada, pouco afeita ao trabalho, que acha natural que políticos enriqueçam quando chegam ao poder, existe em qualquer lugar do mundo. O que impressiona é a quantidade deste tipo de gente que há no Brasil. 200 milhões, aproximadamente.

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