Enquanto a Inglaterra vivia a febre punk, muito antes de Bin Laden, uma onda diferente assolava Nova Iorque. Na foto, alguns dos integrantes do movimento que viria a ser conhecido por No Wave.
A impressão geral de que o movimento punk nasceu em Londres e é uma invenção de Malcom Mclaren, se deve, antes de tudo, a uma eficiente jogada de marketing do próprio ex empresário dos Sex Pistols. Depois à imprensa mundial, americana inclusive, que sempre fez questão de alimentar o mito da origem inglesa do movimento. As razões são até fáceis de entender. Nos anos 70, a ilha britânica era considerada um espécie de oásis musical enquanto a produção americana de rock era solenemente ignorada. Grupos americanos como os Stray Cats e artistas ianques como Chrissie Hynde e Elvis Costello tiveram que mudar de continente para conseguir fazer sucesso, a ponto de muita gente se surpreender ao descobrir que eles não eram ingleses. Costello é o exemplo mais expressivo. Depois de anos sem conseguir muita coisa no cenário underground nova-iorquino, estourou logo no primeiro disco ao se mudar para Londres e conseguir um contrato.
CBGB, o clube originalmente de country-music, onde o punk, a new wave e a "no-wave" vieram ao mundo.
Com o sucesso de grupos como Blondie, The Knack e The Cars, o rock americano conseguiu finalmente o reconhecimento que buscava, fazendo com que bandas que antes só eram conhecidas no pequeno universo nova-iorquino se lançassem em turnês nacionais, esvaziando o cenário da cidade que nunca dorme. Foi a chance para que uma turma deslocada e descolada, que conseguia a proeza de serem considerados esquisitos demais por gente que já era naturalmente esquisita, como Richard Hell e Dee Dee Ramone, tivesse a oportunidade de finalmente ver a luz do dia. Ou melhor, a falta de luz do esfumaçado CBGB. Sem ter a quem incensar, a imprensa resolveu voltar seu interesse para aquele bando de malucos interessados em música atonal e jazz, além é claro, do natural punk-rock e muito, muito barulho.
Lydia Lunch: Ultraje adolescente.
O novo movimento, que alimentaria a sede de novidades da imprensa musical, sequer era realmente um movimento. Apenas um nome para uma porção de bandas que, em comum, tinham um anticomercialismo radical, tentando criar um som que era a antítese da sonoridade pop da vigente New Wave. O destaque maior vai para Lydia Lunch, uma adolescente de 16 anos que trabalhava como garçonete no CBGB, e apresentava uma performance em que berrava e rolava no chão durante os shows do saxofonista James White. Após uma meteórica passagem pela banda de White, os Contortions, Lydia (pra quem Stiv Bators, do Dead Boys, compôs a irônica I Need Lunch) formou a sua própria banda, batizada com o ultrajante nome de "Teenage Jesus & The Jerks" (algo como O Jovem Jesus e os Punheteiros). O grupo, um dos menos musicais da história da música, conseguiu lançar alguns singles pela ultraunderground gravadora ZE Records, com "músicas" de 30 segundos, que depois seriam reunidos em um LP intitulado Everything. As "canções" falavam abertamente sobre heroína e inspiraram, alguns anos depois, a banda inglesa Jesus & Mary Chain, que, além do nome, copiou os Jerks no uso exagerado de distorções.
James "Chance/White/Black". Ultraje sonoro e atonal.
Fã de Miles Davis e New York Dolls, James White, que também atendia por Black e Chance, criou uma sonoridade absolutamente genial para seu grupo, The Contortions. Influenciado pelo músico erudito Stockhausen (que, a despeito de suas melodias desconcertantes, é mais conhecido por uma das raras passagens realmente melodiosas de um trabalho de sua autoria, a suíte America, imortalizada pelo cantor Trini Lopez), James Chance tocava seu sax como alguém em transe, enquanto sua banda executava uma base que pouco, ou nada tinha em relação com o que ele estava tocando. Em seus momentos mais pirados, Chance costumava se picar de heroína no palco. Uma versão mais "aceitável" de sua sonoridade foi criada por Jonh Lydon, ex-Rotten, em sua banda PIL. Antes de reformular seu grupo e mudá-lo de nome para James White and The Blacks, gravou um disco essencial, irônicamente chamado Buy The Contortions
O DNA de um americano de Recife.
Menos radicais em suas pretensões não comerciais, mas ainda assim, uma banda de difícil assimilação, o DNA, um trio liderado pelo americano-brasileiro Arto Lindsay, acabou também ensacado no embrulho da No Wave. Sua bossa cerebral acabaria detonando um interesse por bossa nova no eixo Nova Iorque - Inglaterra, e provocando o surgimento de grupos como o Matt Bianco e o Everything But The Girl nos primeiros anos da década de 80. Após alguns discos solo, formou o duo Ambitious Lovers, onde cantava em português e mais tarde, mudaria definitivamente para o Brasil, onde trabalharia como produtor e compositor.

Em 78, o "movimento" receberia o aval de um outro músico polêmico. Brian Eno, ele mesmo , o compositor de temas atonais que pouco se enquadram na definição comum de música, produziria a clássica coletânea No New York. O disco, lançado e bancado pela gravadora de August Darnell, o Kid Creole, continha faixa das três bandas e de uma quarta, a Mars, de menor projeção.
Provavelmente a primeira coletânea temática da história do rock, No New York foi intensamente copiada mundo afora, tanto na forma como no conteúdo. No Brasil, a título de curiosidade, temos duas famosas, Não São Paulo (que dispensa comentários) e Rock Grande do Sul. O "sucesso" alcançado pela coletânea, despertou maior interesse na "onda nenhuma" e novos grupos foram adicionados pela imprensa especializada. Havia o funk branco, altamente influenciado por jazz, do Material (e que é o que há de melhor no "movimento"), liderado pelo músico Bill Laswell; o bubble-gum alquebrado de Glenn Branca em seu Theoretical Girls; o jazz sofisticado, entremeado de ruídos, do Lounge Lizards de John Lurie, do qual também participava o onipresente Arto Lindsay, e muitos outros, de menor repercussão.
No New York, o disco preferido de dez entre dez terroristas muçulmanos.

Curiosamente, a banda de maior sucesso comercial da No Wave não era de Nova Iorque. O grupo Pére Ubu, de Ohio, sem querer, já que a despretensão da banda era evidente, conseguiu até um disco de ouro com sua mistura de ruídos e punk-rock.
A "No Wave" terminou por volta de 1982, quando o interesse pelos ruídos exagerados da turma nova-iorquina deu lugar ao que a imprensa musical passou a chamar de Cold Wave ou Techno-Pop, mas deixou rastros que permanecem até hoje na música mundial. Quando você ouvir uma sonoridade esquisita por aí, acredite, é tudo culpa da No Wave.
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