A história do rock, em seus 65 anos de
existência costuma ser contada como se contam cadáveres. John Lennon, Jim
Morrison, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Ian Curtis, Kurt Cobain, Amy Winehouse,
Dave Brockie, Dee Dee Ramone, enfim, os grandes ídolos do rock estão todos
mortos, devidamente imolados pelos viventes que os adoram.
Há até um meme assombrando as redes sociais que parafraseia o filme “Sexto Sentido”,
afirmando que “eu ouço gente morta”, como se morrer, e ainda mais se for de
forma trágica, concedesse a quem quer que seja algum tipo de atestado de
qualidade musical. Mas estas são as contradições do mundo do rock e dos que
ouvem este estilo de música.
Roqueiros acreditam ter um gosto
refinado por ouvirem rock e menosprezam todo e qualquer estilo que considerem “abaixo”,
inclusive a música pop que tanto lhe deu de comer pela mão, em um caso clássico
de cuspir na mão que o alimentou. O rock só abaixa a cabeça para o jazz e a
música erudita, até porque jazzistas e músicos clássicos, por sua vez,
consideram o rock como parte de todo “o resto”. Mas, enfim, como forma de
manter firme a “fé” no rock and roll, criou-se o panteão de mártires e santos
que bem conhecemos e, confessemos, também idolatramos.
WIlko Johnson, guitarrista inglês,
ex-integrante da lendária banda Dr.
Feelgood, é um sobrevivente. A esta
altura, deveríamos estar lembrando dele como um dos muitos que se foram em 2014, enquanto o velho guitarrista apodrecia em um caixão. Deveríamos estar ouvindo a
sua banda, emocionados, consternados e saudosos. Quem sabe até o grupo
finalmente alcançasse a notoriedade que merecia “em vida”?
Mas Wilko, contra todas as expectativas, está vivo e a sua história foi
contada pelo cineasta Julien Temple
em seu novo documentário. E esta história, de fato, merece ser contada. Em “The
Ecstasy of Wilko Johnson”, Temple conta a experiência de como ele, Wilko, enfrentou um câncer raro e, ainda assim, sobreviveu. E estar vivo quando se deveria estar morto
pode ser mesmo fascinante.
O documentário de Julian Temple, para
início de conversa, não foi feito para registrar a sobrevivência de Wilko e
sim, sua agonia e morte. Diagnosticado com uma doença incurável em janeiro de
2013, Wilko passou todo aquele ano fazendo emocionantes shows de despedida. Em
vez de ser consolado, era o artista quem consolava os fãs.
Na primavera de 2014, debilitado pela
doença, foi submetido a uma operação, uma última tentativa de ter uma sobrevida
de mais alguns anos, sem necessariamente poder ser curado. As chances de sobrevivência
eram de apenas 15% e de cura efetiva eram desprezíveis. Mas Wilko Johnson se
curou. Curou-se e agora anda meio perdido, deslocado, sem saber o que fazer da
vida que não esperava ter mais: “- Eu costumava pensar no futuro como mais dois
ou três meses de vida e ainda não acostumei com a ideia que não estou mais
morrendo”, diz.
“The Ecstasy of Wilko Johnson” estreou
esta semana no Reino Unido, não tem data para ser lançado no Brasil e
provavelmente nunca será. Não se trata de mais um filme sobre a morte de um
rockstar, embora até deveria ser, é verdade. Mas não é. E, além do mais, Wilko
Johnson é um ilustre desconhecido em Terra Brasilis, o que torna ainda mais
improvável o lançamento da película por aqui. A extrema ironia é que ele fazia
parte de uma banda cujo nome significa o mesmo que médico charlatão. Os deuses do rock foram charlatães com Wilko,
para o seu próprio bem. Os fiéis necrófilos da religião rock, o culto onde apenas os que
morrem têm algum valor, estes terão que esperar um pouco mais.
(Em 2021, Wilko segue vivo e chutando).
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