Pular para o conteúdo principal

Tesouros da juventude: Widowmaker - "Too Late To Cry" (1977)

Widowmaker é um grupo inglês formado ainda na primeira metade dos anos 70 por integrantes secundários de grandes - ou nem tanto assim - bandas daquela época. Seu membro mais prestigiado era Luther Grosvenor, ex-guitarrista do Spooky Tooth e Mott The Hoople, também conhecido como Ariel Bender. Da formação que gravou o primeiro disco, ainda havia Huw Lloyd-Langhton, guitarrista egresso do Hawkwind, Bob Daisley, baixista do Uriah Heep e Paul Nichols, baterista do Lindsfarne. Nos vocais, Steve Ellis, que vinha de uma banda, o Love Affair, com um hit mundial, "Everlasting Love". Esta formação gravou o primeiro disco, de 1976, sendo Ellis substituído pelo novato John Butler para a gravação do segundo disco.

Quando "Too Late To Cry", o segundo disco do Widowmaker, foi lançado, em fevereiro de 1977, a recepção do público surpreendeu a todos e o álbum foi direto para lista dos 200 mais vendidos nos Estados Unidos. Parecia que finalmente chegara a hora do "mini-supergrupo", como era desdenhosamente chamado pela crítica, se transformar em superstars "de verdade". Porém, a saída repentina de Bob Daisley para formar o Rainbow de Ritchie Blackmore precipitou a crise e, exatas duas semanas depois do novo álbum vir ao mundo, a banda acabou.

Nenhum título poderia ser tão profético quanto este, "tarde demais para chorar". De fato, com o disco sendo lançado até no Brasil, pela Copacabana e com o selo "série punk rock" na capa, e  a canção "Here Comes The Queen" sendo executada sem jabá nas rádios dos EUA, era mesmo tarde demais para qualquer coisa ser feita.

Adquiri o "Too Late to Cry" da mesmíssima forma que comprei todos os meus discos da adolescência: no balaio, no saldo, na promoção. E foi paixão à primeira vista e audição idem, paixão esta que dura até hoje, sendo este um dos melhores discos de rock and roll que já pude ouvir na vida. O lado A começa com a faixa título, um pulsante blues-rock com ares new wave. Segue com "The Hustler" e sua introdução hard que descamba para um reggae deliciosamente descarado, com direito até a marimbas. "What a way to fall" é um hard blues pesado e denso com uma riff de guitarra marcando quase toda a canção. "Here Comes The Queen" é uma balada country bem ao gosto norte-americano, feita sob medida para agradar o público alvo da banda. "Mean What You Say", um hard rock com tinturas pop, encerra o primeiro lado do álbum.

O lado B recomeça com outro blues rock , com forte eco de Rolling Stones,. "Something I Can Do Without". Segue com a divertida "Sign The Papers", com tinturas soul, e desemboca na stoníssima Pushin' and Pullin', disparadamente a melhor do disco, encerrando com a mediana "Sky Blues". 

John Butler viria a ser mais conhecido no futuro como o vocalista da banda oitentista Diesel Park West. Dos outros integrantes, pouco se falou ou fizeram de relevante após o fim do projeto. "Too Late to Cry" é um dos vinte discos que eu gostaria de levar comigo quando morresse, para ouvir, fosse no céu ou no inferno. Por isto, sem dúvida, é um dos meus tesouros da juventude.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CARTA ANÔNIMA

 Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa.  Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...

Deus prefere os ateus.

N ão sou ateu. Até já pensei que era, mas não, realmente, eu não sou. Isto não me faz melhor ou pior do que ninguém, mas eu realmente acredito em um Deus Criador. Bem que eu tentei ser ateu, mas a minha fé inexplicável em alguma coisa transcendental nunca me permitiu sê-lo. Também não sou um religioso, eu sou apenas um crente, ainda que tal palavra remeta a um significado que se tornou bastante negativo com o passar do tempo. Q uando falo aqui em ateu não falo daqueles ateus empedernidos, que vivem vociferando contra Deus, confundindo-o de propósito com o sistema religioso que O diz representar. Estes são até mais religiosos que os próprios religiosos, ansiosos de que convencerem os outros, e a si mesmo, de que um Deus não existe. Quando menciono os ateus a quem o Divino prefere, eu me refiro àquele tipo de pessoa que não se importa muito se Deus existe ou não, mas, geralmente, são gentis, solícitos, generosos, éticos e muito mais honestos que muitos religiosos. E u bem que tent...

LEMBRANÇAS DE WILSON EMÍDIO.

E sta é uma história sobre rock e amizade. Não importa muito se você nunca ouviu falar de  Wilson Emídio.  Certamente, se você gosta das duas ou de uma das coisas - rock e fazer amigos - , você vai gostar do que vai ler aqui. E m 1984, eu tinha uma banda de rock chamada Censura Prévia. Ensaiávamos na sala de estar de minha casa, assim como os Talking Heads ensaiavam na sala de estar do David Byrne no início da carreira. Tanto que, ao ver aquelas fotos do disco duplo ao vivo da banda  nova-iorquina,  me remeto imediatamente àqueles tempos. E, por mais incrível que possa parecer, nós tínhamos duas fãs. Eram duas vizinhas que não perdiam um ensaio, sentadas no sofá enquanto se balançavam, fazendo coreografias, rindo muito e tomando refrigerante. Um dia elas resolveram criar  um fã-clube para o nosso conjunto amador. Na verdade, elas mandaram uma carta para a revista Rock Stars,   uma publicação de quinta categoria, mas baratinha e acessível aos quebrados ...