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Dos arquivos empoeirados: Wall Of Voodoo - "Dark Continent" (1981)

No que poderia dar uma mistura de rock "new wave", música eletrônica "low-fi" - feita com instrumentos vagabundos -  e  uma enorme influência de trilhas sonoras de western-spaghetti e/ou Ennio Morricone? Bem, se você disse qualquer coisa que não seja Wall Of Voodoo, sinto muito, você errou feio.

Wall of Voodoo era para ser a banda de Stan Ridgeway, um compositor insatisfeito de trilhas sonoras para filmes obscuros e eventual cantor. Natural de Los Angeles, Ridgeway sempre acompanhou com muito interesse a cena punk da cidade e era frequentador assíduo do clube angeleno The Masque, bem ao lado do escritório da sua empresa, a Acme Soundtracks. No entanto, Wall Of Voodoo ficaria mais conhecida pelo único hit, Mexican Radio, e pela troca de vocalista e figura principal no auge do sucesso.

Foi no Masque que  Stan Ridgeway encontrou nos irmãos Marc e Bruce Moreland, os cúmplices ideais para a empreitada e, com a adição de membros originais da banda dos irmãos, os The Skulls,, estava formada a primeira e melhor encarnação do  Wall Of Voodoo. O nome da banda faz referência ao famoso Wall of Sound, o método de gravação com superposição de camadas e camadas de som do produtor Phil Spector.

Após o lançamento de um EP chamado "Ring of Fire", a banda partiu, logo em seguida, para seu excelente disco de estréia, "Dark Continent". Apesar de ter se tornado mais conhecida pelo seu segundo disco, chamado Call of The West, lançado no ano seguinte, é este  seu primeiro álbum que demarca o território criativo que acabaria transformando-os em uma das bandas mais originais e inacessíveis dos anos 80.


A temática de Dark Continent é a decadência moral e intelectual dos EUA, e as letras de Stan Ridgeway chamam atenção pela feroz crítica às estruturas sociais norte-americanas.. O disco abre com "Red Light", uma espécie de rockabilly eletrônico-esquizofrênico , inclassificável. "Two Minutes To Lunch" e "Animal Day" perseguem a sonoridade kitsch de filmes spaghetti italianos que faria a fama da banda. Em "Full of Tension" o arranjo divertido de teclados  que marca a canção pode soar um tanto desagradáveis a alguns ouvidos. O clima pós punk de "Me and My Dad" antecipa "Back in Flesh", inegavelmente a melhor canção do álbum.


O lado B começa com "Tse Tse Fly", sem nenhuma surpresa, e segue com "Call Box 1-2-3" que se tornaria o "hit" de um disco concebido para não ter hits. "This way out" é apenas correta e em seguida, vem um dos melhores momentos de Dark Continent, a quase ensolarada "Good Times", com seu refrão "ganchudo" e também quase assobiável. "Crack the Bell" segue a linha "schizo" da música de abertura, encerrando o segundo lado e o disco também.


Em 1983, a banda participa do filme Urgh! A Music War e, logo em seguida, o mentor e vocalista Stan Ridgeway deixa o grupo, que ainda seguiria com outro vocalista, mas sem repetir o brilho dos dois discos com o cantor original. Wall Of Voodoo não é uma banda para iniciantes, e sim para iniciados. Dark Continent não é um disco de musiquinhas fáceis de digerir. Não tente ouvir sem estar realmente preparado. Não há canções fáceis ali. Porém, ao apurar os ouvidos, nos damos conta de que estamos, afinal, diante de um dos melhores discos já gravados em todos os tempos.






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