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Um disco por ano de vida: Led Zeppelin - "Led Zeppelin IV" (1971) - Parte II

Quando o Led Zeppelin se reuniu para gravar aquele que seria seu quarto disco estava fortemente pressionado pela gravadora para dar um nome ao próximo trabalho.  A banda, apesar da boa recepção pelo publico, o que se refletia nas  vendagens altas e nos shows lotados, não teve a mesma  recepção junto á crítica. E um dos pontos em que a crítica especializada "pegava no pé" do grupo era justamente o fato de que seus três primeiros discos não haviam recebido título algum e eram parecidos demais uns com os outros.

De fato, o acréscimo dos algarismos romanos aos segundo e terceiro discos foi, literalmente, "arte" da gravadora. A depender da banda, todos os três discos se chamariam apenas "Led Zeppelin". Porém, a acusação de que seriam discos repetitivos definitivamente não procede.  Quando surgiu, o Led Zeppelin não passava de uma continuação rasteira da banda anterior de Page, os Yardbirds. Tanto que a ideia inicial para o nome era "New Yardbirds", tendo Jimmy Page que arrumar outro nome após gravadora e outros integrantes do Yardbirds original ameaçarem entrar com um processo judicial contra o novo grupo.

Quem acabou batizando a banda foi o baterista Keith Moon, do The Who, que, sem esperanças que o combo de Page fizesse sucesso, afirmou após assistir a um ensaio, que aquela banda "iria subir como um zepelim de chumbo". Mas a banda sobreviveu às predições de Moon e até mesmo a um processo da família Zeppelin, que não gostou nada de uma banda de rock usar o nome do inventor do dirigível. Alcançara um enorme sucesso em muito pouco tempo e chegara a 1971 com uma reputação sólida junto ao público e uma gravadora ávida por um disco que tivesse algum título.

Foi então que, para desespero dos executivos da Atlantic, Page e Plant resolveram que, desta vez, o disco não teria nenhum nome, nem mesmo o da banda. E não iriam permitir mais a colocação marota de outro algarismo. E assim foi feito.

Gravado em um estúdio em uma pequena propriedade do interior da Inglaterra, o quarto disco do Led Zeppelin foi gestado sem pressa. Ainda assim, em poucas semanas o Led Zeppelin IV, como acabaria ficando conhecido, era entregue à gravadora. Foram 23 milhões de cópias vendidas apenas nos EUA e mais de 40 milhões no mundo inteiro. Nada mal para um disco que nem nome tinha.

O lado A abre com "Black Dog", um hard rock vibrante com toques de funk music. Na sequencia, "Rock And Roll", uma inesperada ode adolescente ao rock que se tornaria clássico absoluto com o passar dos anos. "The Battle of Evermore", com participação da cantora Sandy Denny, é baseada na trilogia "O senhor dos anéis" e tem um clima folk-psicodélico que é um dos pontos altos do disco. O primeiro lado se encerra com uma das melhores canções de todos os tempos, "Stairway To Heaven". Uma curiosidade é que a introdução da música foi surrupiada por Page e Plant de "Taurus", um instrumental da banda Spirit, para quem haviam aberto alguns shows, dois anos antes.

O lado B se incia com "Misty Mountain Hop" e uma insuspeita batida soul. "Four sticks" é pesada e ritmada. "Going to California" é uma balada excelente para ser ouvida em uma morna tarde de primavera, exatamente como esta em que escrevo estas linhas. Encerrando o disco, mais uma chupada da dupla de compositores, desta vez muito mais explicita, já que nem se deram ao trabalho de mudar título e letra, modificando levemente a melodia de "When the levee breaks" e creditando à banda, ainda que a canção seja de autoria da blues-woman Memphis Minnie, cujo original havia sido gravado ainda em 1927 por ela e seu marido, Kansas Joe McCoy.

Led Zeppelin IV é um disco que chega a incomodar de tão perfeito. É preciso ser muito, mas muito chato, para gostar de rock e dizer que não gosta deste disco. Foi o álbum que transformou o Led Zeppelin na maior banda dos anos 70. Ainda hoje, tantos anos depois,  o ouço com o mesmo entusiasmo e satisfação. Um disco para se levar dentro do caixão na esperança de, no céu ou no inferno, haver uma vitrola qualquer disponível.




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