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CONSIDERAÇÃO.

Quando eu ainda perdia meu tempo discutindo política, costumava dizer que "democracia" era a palavra mais prostituída do mundo. Afinal, para a maioria — esteja à direita ou à esquerda —, democracia é puramente aquilo que convém ao próprio umbigo. Sem contar que a palavra costuma figurar no nome oficial de repúblicas que não têm um pingo de liberdade democrática. Mais tarde, quando decidi me afastar do debate político em nome da minha sanidade mental, elegi outra palavra para ocupar esse topo de desgaste: amizade . Não me entendam mal. Gosto muito dos meus amigos e valorizo a convivência, apesar da minha habitual misantropia e de uma desconfiança quase crônica na humanidade. No entanto, ao longo de seis décadas de vida, acumulei know-how suficiente para afirmar sem medo: a palavra "amizade", por si só, não vale absolutamente nada.  Eu me tornei um cético do título e um devoto da consideração . Houve um tempo — e já nem sei se o mundo continua nessa insanidade — em q...

ANTES ELE DO QUE EU.

O ano era 1984 e todos respirávamos aliviados porque o tal estado fascista, profetizado por George Orwell para este ano, não havia se concretizado. Eu cursava o terceiro ano do ensino básico em um colégio com nome de filme de rock e, lá, os professores fingiam que ensinavam, os alunos fingiam que aprendiam e o dono da escola passava longe de fingir cobrar a mensalidade dos que atrasavam. O desastre era iminente. Tudo indicava que todo mundo, ou quase todo mundo, iria levar bomba no vestibular e o colégio seria campeão de reprovação naquele ano. Eis que o diretor, um clone ruivo de Freddie Mercury, resolve vazar as provas de recuperação para evitar o mal maior. Ainda assim, de toda a turma, apenas três passaram no vestibular, e um deles fui eu. Eu pretendia cursar Publicidade e Propaganda e acreditava que aquela era mesmo a minha vocação. Acontece que eram os anos 80, não havia ainda as uniesquinas da vida e a Bahia ainda não tinha este curso. Fiquei indeciso entre Psicologia e Jornalis...

A Criatividade Sob Suspeita: O Preço Pago pelos Abusos da Inteligência Artificial.

O ser humano tem um talento quase inerente para fazer mau uso dos avanços tecnológicos. No caso da inteligência artificial, esse mau uso é evidente. Seja em trabalhos escolares completamente escritos por IA, em deepfakes de políticos e celebridades, na clonagem de vozes de artistas famosos para músicas geradas artificialmente ou na disseminação de informações falsas. Certamente você já se deparou com algum vídeo “revelando” um suposto segredo escondido na Antártida ou qualquer outra teoria mirabolante criada para atrair cliques. Mais preocupante até do que a capacidade humana de fazer mau uso da tecnologia é a capacidade do ser humano acreditar em qualquer coisa que vê ou ouve. Os avanços da inteligência artificial deram às pessoas uma ferramenta capaz de tornar plausíveis até as narrativas mais absurdas. Lembro quando surgiram IAs que permitiam a uma pessoa se inserir em videos retratando acontecimentos do passado como se fosse um repórter da História de smartphone na mão tirando se...

REFUTANDO SHELDON: UMA OUTRA TEORIA PARA O BIG BANG.

  Introdução: O Passado que Ainda Existe no Espaço Imagine que uma civilização tecnologicamente avançada, situada em uma galáxia remota a 65 milhões de anos-luz de distância, aponte um telescópio ultra potente para a superfície da Terra hoje. Eles não veriam nossas metrópoles, nossas frotas de aviões ou a rede de satélites que orbita o planeta. O que eles veriam, em tempo real, seriam os dinossauros caminhando sobre a Terra. Isso não é um exercício de ficção científica; é uma realidade física incontornável ditada pela velocidade da luz. A luz que refletiu nos corpos dos dinossauros há milhões de anos não desapareceu. Ela está, neste exato momento, viajando pelo vazio do cosmos. O passado, portanto, não é um fantasma abstrato; ele é uma coordenada física real que continua existindo e se propagando pelo espaço. Se a física de Albert Einstein já nos provou que o espaço e o tempo estão fundidos em um tecido quadridimensional (o espaço-tempo), precisamos dar um passo adiante e questi...

(A história da música) Gigante.

Q uando eu me separei da primeira esposa, eu estava exatamente como Zeca B aleiro se descreveu na música Telegrama : " T ristinho", " s ozinho" e "mais solitário que um paulistano".  No primeiro aniversário que passei separado, visivelmente depr imido, uma amiga saiu comigo e me levou a um shopping para comprar o presente que ela queria me dar "para me animar": Um DVD da sua banda preferida, os "Los Hermanos". N ão bastasse eu, simplesmente, detestar a banda de Camelo e Amarante -  à exceção de "Anna Julia", uma baita música , da qual gosto até hoje - , ainda que imbuída das melhores intenções, a minha amiga pretendia me "animar" me dando de presente a trilha perfeita (para mim) para um suicídio. Diga-se o que quiser dos Los Hermanos , mas, não há nada na obra do grupo, nem mesmo "Anna Julia",  que possa ser adjetivado como  "divertido" ou "animado". F uçando os títulos di...

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

METEORO NOS DINOSSAUROS

Um dia Deus ganhou consciência. Não se autodenominava Deus, é bem verdade,  este é um nome que os homens lhe dariam bem mais tarde. Mas foi então que Ele percebeu onde estava. Era tudo um imenso vazio. Não sabia se fora criado, nem porque estava ali. Percebia suas formas, seus braços, suas pernas, seu corpo e percebeu também que podia imaginar. Sim, imaginar. E logo se deu conta que tudo o que Ele imaginava tomava forma. Foi então que fez um ser à sua semelhança e quando o criou tudo se iluminou à sua volta. Chamou-o de Lúcifer pois entendeu que deveria chamar aquele ser por um nome. Ainda que criasse outros seres idênticos a Ele, Lúcifer permaneceu sendo o anjo preferido de Deus. Deus também percebeu que poderia criar pontos no vazio e os chamou de estrelas. À sua volta Deus criou planetas e não se cansava de imaginar outros tipos de astros siderais. Ele havia descoberto um sentido para a sua existência. Ao todo chamou de universo. Criou o sol, em sua volta alguns planetas e a um,...

GENTE AZUL (OU "SOMOS TODOS MACACOS")

Sim, somos todos macacos. Mas quando digo que somos assim não me refiro a nenhum tipo de adjetivação pejorativa que alguns humanos lançam sobre outros humanos. Quando digo que somos todos macacos, quero dizer que primatas somos e primatas sempre seremos. E  também somos hominídeos. E entre os hominídeos somos os homo sapiens, os únicos hominídeos que restaram na face da Terra. E eis aqui, precisamente, a nossa única raça, a humana. Isso é biologia, é ciência, não se trata de ideologia. Não existem, biologicamente falando, raças a não ser a humana. O resto, qualquer resto, são meras construções sociais e históricas. Mas se há algum sentido no conceito de raças - e eu não acho que há - dividi-las entre raça negra, branca, amarela, indígena e smurfs me parece ter ainda alguma lógica. Afinal, a cor da pele bem poderia ser um ponto de partida para os que acreditam no conceito de raças, não necessariamente aqueles que acham uma raça superior à outra. Porém, reina aí a enorme contradição:...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...

Três pregos para John Lennon

Sem nem precisar usar o argumento de que era outro tempo, outra sociedade e outra cultura, basta afirmar que John Lennon, ao imitar alguém com deficiência mental em um show, estava, na verdade, ridicularizando o show business comparando a si mesmo com alguém que não tem completo domínio sobre si mesmo nem sobre seus atos. Da mesma forma, haters de rede social, que hoje são aceitáveis,  daqui a 50 anos podem representar comportamentos tão constrangedores quanto o de Lennon nos parece hoje. A vítima da vez dos exageros do politicamente correto chama-se John Winston Lennon e não é um homônimo, trata-se dele mesmo, John Lennon , músico, ex-guitarrista dos Beatles , brutalmente assassinado no final de 1980 por Mark Chapman. Nas redes sociais, os "haters" de plantão, aquelas pessoas com sérios problemas psicológicos que se dedicam a massacrar quem quer que seja para satisfazer as suas carências afetivas, já elevaram o assassino de Lennon à condição de "meu herói...

A CARTA ANÔNIMA

 Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa.  Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...

UMA CARTA PARA O CASAGRANDE

Meu caro Casagrande, como vai? Não curto muito futebol mas sempre tive uma enorme simpatia por você, provavelmente por se declarar "roqueiro" em suas entrevistas do tempo de futebolista. Porém, volta e meia, eu vejo você afirmar na mídia que "roqueiro conservador ("reacionário", você fala) nunca foi roqueiro". Quando você diz isto, você também está afirmando que Little Richard, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Ted Nugent, o vocalista do Metallica e tantos outros artistas que combinaram rock and roll e posições conservadoras, não seriam roqueiros. E tudo isto você diz apenas porque os tais roqueiros "reacionários" não comungam das mesmas ideias que você. Devo dizer, meu amigo Casagrande, que não sou um "roqueiro conservador" ou sequer um "roqueiro progressista". Na verdade, eu nem sei se posso ser chamado de roqueiro porque ser roqueiro, para mim,  é uma coisa meio fascista, de querer impor seu gosto musical, suas ideias, seu st...

A HISTÓRIA DA LP & OS COMPACTOS PARTE XVIII (FINAL) - HERE TODAY, GONE TOMORROW.

E m 2006 meu casamento havia chegado ao fim, tinha feito um punhado de canções mais maduras e até mesmo mais melancólicas e nada do que eu escrevia parecia muito se encaixar no repertório da LP & Os Compactos. Por outro lado, a banda continuava sem baterista e agora também sem baixista, já que Stephen havia expressado firmemente o desejo de permanecer definitivamente com o seu outro instrumento, a guitarra. N esta época, finalmente cedemos ao pedido daquele a quem chamávamos de "Viúva Porcina" - o músico que desde o início da banda queria ter sido o baterista - e o testamos, mas o resultado não foi bom. Encontramos também um guitarrista de  heavy metal e Stephen retornou brevemente ao baixo, mas também não deu muito certo. Charge por Daniel Figueiredo E u, por outro lado, já estava cansado de tanto esforço em vão, sem ter o reconhecimento devido da mídia local, com pouca compensação financeira e com essa enorme dificuldade de encontrar músicos para tocar na única banda fe...