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UM TIJOLO POR DIA.

Me lembro bem do dia em que, ainda adolescente, resolvi abraçar uma religião. Tinha entre 13 e 14 anos, os cabelos davam nos ombros e não passava de um menino espinhudo e com aquele aspecto típico de nerd. Aliás, o filme “A Vingança dos Nerds” bombava nos cinemas e eu e minha turma éramos a quase perfeita tradução baiana dos protagonistas daquela película.

Da nossa turma, apenas eu e um amigo costumávamos proferir blasfêmias a respeito de Deus e da religião, com aquele ar rebelde e transgressor de quem fala baixo para desabafar sem agredir o vizinho. Não deu outra: Pouco tempo depois, lá estávamos sentados nas cadeiras de uma Igreja Batista, com uma Bíblia na mão e tentando  entender o  que estava se passando ali. Logo começamos a frequentar a escola dominical da instituição, nos preparando para sermos batizados e nos tornarmos membros da Igreja.

Em um destes domingos, o preceptor foi bem claro:
- “Quem ouve rock jamais irá para o reino dos céus”. E apontando para mim, ainda completou: - “E quem usa cabelos grandes e se parece com mulher também!”. Fiquei constrangido com aquele bullying  espiritualizante, porém voltei para casa decidido a cortar o cabelo e jogar meus discos do Kiss fora, como é dito naquela música do Cheap Trick, chamada Surrender

Passei o dia inteiro matutando sobre aquilo, resistindo à tentação diabólica de ouvir o Kiss – e a outras tentações também -  até que resolvi:  Não iria cortar meu cabelo, cultivado a duras penas e à custa de muita touca e creme de babosa, muito menos deixar de ouvir meu roquezinho, que era o que me aliviava de verdade, em tempos de conflitos internos enormes. Já o  meu amigo, ao contrário, continuou firme nas sendas do Senhor e é evangélico até hoje. Eu estou feliz como sou e ele, feliz como é. O resto, não tem a mínima importância.

Desde então, seguindo o conselho do ET Bilú, busquei conhecimento interior em diversas religiões: Budismo, espiritismo, candomblé, catolicismo e outros "ismos" fé afora. De fato, a religião que mais me aproximou do meu objetivo nem é exatamente uma religião. No movimento Hare Krishna, um grupo com origem no hinduísmo e  mais conhecido pelo exotismo das vestimentas de seus monges  do que pelas suas ideias,  encontrei um conforto espiritual que jamais conseguira e jamais conseguiria em nenhuma outra crença.

Para fazer parte de um grupo religioso, seja ele qual for,  é necessário uma  certa dose de ingenuidade, ou,  ainda se preferirem, inocência. É preciso acreditar que o mundo lá fora é bom e aberto à nossa bondade e generosidade. E, ainda mais, é essencial  acreditar que o universo religioso em que estamos nos inserindo é seguro, puro e compensador. E, com o passar do tempo, eu não tinha mais a inocência necessária para fazer parte de qualquer religião. Porém, o carinho  e a gratidão com os Hare Krishna permaneceram, e, com eles, aprendi que o que buscamos de verdade a vida toda é a autorrealização.

A autorrealização é um conceito praticamente  universal, presente em  todas as correntes religiosas. Todos buscam um conforto, um apaziguamento  das inquietações humanas, e a religião se presta muito bem a dar este conforto.  O diferencial da autorrealização ensinada pelos Hare Krishna é que ela é para o aqui e o agora. Nada de sofrer na Terra e ganhar terrenos no Céu, pois é aqui que você tem que ser feliz. A má notícia – para alguns – é que a verdadeira felicidade só é possível com a anulação do ego e o desapego das coisas materiais.

Anular o ego e ser menos materialista não implica, de forma alguma, em passar privações ou fazer voto de pobreza. Trata-se de, como dizia Walter Franco, manter a mente quieta e o coração tranquilo em um mundo, por definição, inquieto e intranquilo. E este processo de aquietar a mente e tranquilizar o coração, aparentemente bem simples,  é muito mais complicado do que se imagina. Dirigir em uma estrada deserta, tendo dormido bem, estando bem disposto e viajando em um veículo em perfeito estado de conservação, pode ser  uma experiência tranquilizante e renovadora. Porém, se estamos usando um automóvel pouco confiável, em uma estrada de apenas  duas pistas e  entupida de outros carros,  o que experimentamos é stress e intranquilidade. Se alguém consegue se manter otimista e bem humorado, tranquilo e quieto,  em uma situação mais adversa, este conseguiu, ou ao menos, está chegando bem perto, da autorrealização.

O processo de anulação do ego, aquele em que nos afastamos das vaidades e veleidades da vida cotidiana, também se torna infinitamente mais complicado quando vivemos em sociedade. Interagir  satisfatoriamente com quem pensa diferente não depende apenas de nós mesmos e saber reagir positivamente a manifestações negativas em relação a nossas atitudes é  muito mais penoso e difícil do que se imagina.

Em mais de cinco décadas de vida e acumulando a experiência adquirida, chego à conclusão de que nenhuma religião lhe dará os ingredientes necessários para o que os Hare Krishna chamam de perfeita realização. Até porque a realização interior é imperfeita  e incompleta por natureza. Nosso ciclo de melhorias internas jamais se completará até que estejamos mortos, pois estamos eternamente em reforma e a casa jamais estará pronta. O que importa, na verdade, é a velocidade e a eficácia desta reforma. Quanto mais rápido nos dermos conta de que podemos ser felizes com o que somos, o que temos e o que vivemos, mais nossa vida progressa será prazerosa e cheia da verdadeira autorrealização. Um tijolo a cada dia.

Comentários

João Régis disse…
Somos partes de um todo maior. Muito maior do que todas as "vaidades" espirituais traduzidas sob o Cândido mando carmesim das tantas Religiões.

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