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A ERA DIGITAL MATOU AS LENDAS.

As câmeras digitais acabaram com todo o mistério que havia no sobrenatural. Antigamente, os gnomos, os elfos, as sereias e toda sorte de seres fantásticos apareciam garbosos e desfocados em fotografias rudimentares. Hoje,  com o advento de telefones com câmeras que conseguem fotografar até as crateras da lua, onde, afinal,  todas as criaturas sobrenaturais se meteram? 

Fantasmas, então, nem se fala. Se antes se intrometiam em fotos de família, bisbilhotavam por trás de janelas e apareciam de surpresa em seu próprio funeral, hoje em dia estão tímidos, acanhados, discretos, até parece que estão mortos! Os discos voadores também resolveram aterrissar, amartizar ou seja lá o que for,  e não aparecem mais em fotos como antigamente, desfocados, mal iluminados e distantes. Na verdade, nem aparecem mais, podem reparar!

Nas paragens tupiniquins temos uma fileira de seres surreais que poderiam se tornar subcelebridades instantâneas e até convidados para um BBB do além: O Boitatá, a Caipora, o Saci-Pererê, a Mula Sem Cabeça, o Lobisomem, o “homem do saco” e tantos outros.  

Onde estão eles? Bastaria que surgissem em frente a qualquer câmera, qualquer uma, de qualquer pessoa.  Mas, agora que poderiam se tornar um viral do You Tube, resolveram se esconder.

A popularização das câmeras digitais nos  fez perceber  que seres fantásticos não existem. Que não há ETs passeando pelas cidades, que não existem fantasmas assombrando as casas, que não existe nada que não seja absolutamente real ou explicável. Se existissem tais seres, já teriam sido fotografados acidentalmente,  como acontecia  no passado. E, com a qualidade das nossas máquinas modernas,  seria fácil provar de uma vez a sua existência.

Vivemos a era da desmistificação do fantástico e   a tecnologia tem uma enorme parcela de culpa em estarmos cada vez mais racionais e descrentes. Contra toda a nossa descrença, porém, a fé dos crentes sempre há de se levantar. Os fanáticos  religiosos estão aí,  fotografando  e filmando  toda sorte de coisas absurdas em suas câmeras e postando no You Tube, jurando que é verdade. Até anjos produzidos em computação gráfica como arte, eles divulgam como sendo reais. Triste fim para os seres fantásticos daqui e de todo o mundo: Para que alguém continue acreditando neles, terá que ter fé. Muita fé.

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