Pular para o conteúdo principal

A SELFIE DE SALOMÉ.

João Baptista era uma espécie de profeta temporão e underground, pra lá de alternativo, que viveu nos tempos de Jesus. Era o vidente favorito de Herodes Antipas, governador da Galiléia daqueles tempos, que nada  fazia sem antes  lhe consultar.  Tal preferência  acabou lhe custando a cabeça, pedida por Salomé, sobrinha  do governante.  

Tardio demais para estar entre os principais profetas do judaísmo, esquisito demais para se adequar aos códigos rígidos do farisaísmo, João Baptista era um esquisitão. Costumava dizer que era a ele a quem o profeta Elias se referia quando falava da  "voz que clama no deserto". João seria "aquele que falaria as verdades e a quem ninguém daria ouvidos". 

Não que eu esteja me arvorando a profeta de coisa alguma, mas sei que todos concordarão plenamente com o que direi a seguir, mas poucos mudarão o seu comportamento. Por isto, me comparo aqui com João, o Batizador. Não por ser um profeta da modernidade, mas, com certeza, por ser mais uma voz que cairá no vazio.

Nada adianta lembrar aqui sobre os perigos de se expor,  postando uma simples foto em  redes sociais, pois, mesmo sabedores disto, as pessoas continuarão dando “check in” aonde vão,  ou continuarão publicando sobre o que têm, o que são, como vivem. Com isto, facilitam enormemente a vida de ladrões e sequestradores, além de atrair gratuitamente a inveja e a cobiça alheias em forma de energia extremamente negativa. 

Além do que, em tempos de redes sociais, privacidade é um conceito quase inexistente. Uma única foto publicada em uma rede social, caso todos os amigos do postador apenas clicassem em curtir, e, assim por diante os amigos deles, e os amigos dos amigos deles, todos curtissem;  esta foto precisaria de apenas oito etapas para que toda a população do mundo tomasse conhecimento dela. Da mesma forma, uma frase mal escrita ou mal elaborada  pode ter uma repercussão  enorme e desastrosa, que pode tornar a vida de quem a postou um verdadeiro inferno.

Selfies são um capítulo a parte na devastação voluntária da privacidade.  O termo “selfie” (literalmente, “euzinho” ou “euzinha”) designa uma modalidade de foto em que a pessoa se fotografa, e em alguns casos, a quem tiver ao seu redor. Acho muito pouco provável que alguém não conheça o termo, mas vale a explicação. Há quem tire selfies no banheiro, enquanto satisfaz as suas necessidades primais e há quem tire selfies com parentes recém-falecidos em momentos que deveriam ser de introspecção e  tristeza. Isto mais do que prova que estamos vivendo a decadência derradeira desta civilização como a conhecemos, onde parecer ser é muito mais importante do que ser.

Todos parecem sabedores dos males da superexposição em redes sociais  mas todos parecem estar perfeitamente felizes com a auto exposição a que se sujeitam. Mostrar a si mesmo ao mundo parece um vício tão imprescindível como um cigarro é para um fumante. 

E tome-lhe vídeos sobre o próprio cotidiano, publicados no You Tube. Não importa se o acontecimento é positivo ou negativo, tem que ser registrado.   A vontade de se expor só equivale à vontade dos outros de assistirem a esta exposição. 

Daí que era o caso de se perguntar: qual o problema, então? Se há quem queira ser visto e quem queira ver, porque não? O argumento é facilmente derrubado com uma simples analogia: Se é banal assim, porque se condena tanto a pornografia? Afinal, na pornografia também há quem queira ver e quem queira ser visto.

Nada contra a pornografia, ao menos a ponto de querer proibi-la. Nada contra, também, quem queira expor-se e aos seus em qualquer lugar que seja, afinal a vida é de cada um. Mas quem ousa fugir deste comportamento padronizado e avisar sobre os perigos que rondam a exposição desnecessária, bem pode acabar como o pobre profeta João Baptista, uma voz solitária clamando no deserto da internet. E, como o profeta, pode terminar decapitado por uma Salomé tresloucada e virtual, que corta cabeças ao tirar suas selfies..
(Ilustração: "Salomé" de Onório Maginari)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...

METEORO NOS DINOSSAUROS

Um dia Deus ganhou consciência. Não se autodenominava Deus, é bem verdade,  este é um nome que os homens lhe dariam bem mais tarde. Mas foi então que Ele percebeu onde estava. Era tudo um imenso vazio. Não sabia se fora criado, nem porque estava ali. Percebia suas formas, seus braços, suas pernas, seu corpo e percebeu também que podia imaginar. Sim, imaginar. E logo se deu conta que tudo o que Ele imaginava tomava forma. Foi então que fez um ser à sua semelhança e quando o criou tudo se iluminou à sua volta. Chamou-o de Lúcifer pois entendeu que deveria chamar aquele ser por um nome. Ainda que criasse outros seres idênticos a Ele, Lúcifer permaneceu sendo o anjo preferido de Deus. Deus também percebeu que poderia criar pontos no vazio e os chamou de estrelas. À sua volta Deus criou planetas e não se cansava de imaginar outros tipos de astros siderais. Ele havia descoberto um sentido para a sua existência. Ao todo chamou de universo. Criou o sol, em sua volta alguns planetas e a um,...