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A BANDA DE ROCK QUE OUSOU PEITAR FIDEL.

Talvez você nunca tenha ouvido falar na banda de rock cubana Porno Para Ricardo. E se não ouviu falar, é sinal de que o regime castrista, mais uma vez, conseguiu limpar a sujeira para baixo do tapete. Não exatamente para baixo do tapete, é verdade, e sim, para dentro do presídio conhecido como “5 quilos e meio”, uma das prisões onde “El comandante” trancafia quem ousa se opor a ele e a sua “revolución”.

Alias, “El comandante” é o título de uma das canções mais conhecidas da Porno Para Ricardo, onde seu vocalista Gorki Áquila vomita impropérios contra aquele barbudo com um charuto na boca. No clip, disponível no You Tube, feito de forma precária, não é bem um charuto que Fidel leva à boca. Em uma outra canção, eles ensinam “como foder a um comunista”. Não deu outra e Áquila, o cantor e autor de tamanho insulto, já passou duas temporadas na cadeia por representar “perigo social” para o governo cubano.

É bom saber que, pelo menos em Cuba, o rock ainda não está domesticado. Ainda não é “chapa branca”, não é financiado com dinheiro público e usa e abusa do direito de contestar o sistema, sem fazer concessões a ninguém e pagando o preço que tiver que pagar para que isso aconteça. E o preço não foi baixo: quatro anos de prisão para Gorki Aquila e trabalhos forçados aos outros integrantes.

Gorki poderia estar até hoje mofando em um calabouço qualquer da ilha se não fosse o clamor internacional para que fosse libertado. Acuado, o governo cubano aplicou uma multa de 30 dólares e libertou o artista. Por via das dúvidas, ofereceu a ele a possibilidade de ir embora do país. Gorki não agradeceu e recusou.

A Porno Para Ricardo surgiu em 1998. O nome faz referência à falta de liberdades individuais na ilha do Caribe. Lá, a pornografia é proibida e o nome próprio, muito comum por ali, representa justamente a individualidade, perdoem-me o trocadilho, castrada. A princípio, a banda tinha letras despolitizadas e foi abençoada por Raul, não o Seixas, mas o Castro. Ser a primeira banda punk de Cuba lhe fez conseguir espaço na TV estatal. Durante a sua apresentação, mudaram a letra da canção escolhida e foram imediatamente banidos da emissora. Na sequencia, são proibidos de tocar ao vivo. 

Em 2003 ocorre a primeira prisão do vocalista, em uma armadilha em que uma policial, se passando por fã do grupo, lhe pede e recebe anfetaminas. Em 2008 ocorre a segunda prisão de Gorki Áquila, agora condenado a quatro anos de reclusão. Sob pressão da opinião pública internacional, o gobierno reverte a pena em “serviço social” e aplica uma multa de dois meses de salário mínimo cubano, exatamente 30 dólares.

Dissidente em seu próprio país, em 2010, Gorki consegue autorização para viajar para o México, onde vivem sua mãe e irmã. De lá, voa para Praga, onde se apresenta em um festival. Como os outros integrantes da sua banda não podem viajar para fora de Cuba, o vocalista se apresenta acompanhado de um conjunto local.

Em 2015 o grupo continua proibido de se apresentar ao vivo e ouvir ou portar alguma gravação da banda pode resultar em prisão. Os músicos gravam suas canções em um estúdio caseiro em local ignorado e as divulgam no You Tube através de um amigo americano. 

Gorki Áquila não faz rock “do bem”. Aquila não faz propaganda do governo cubano na TV. Não há “faz cultura” nem “lei Rouanet” para ele. O cubano faz rock de combate em um lugar onde quem combate o regime costuma morrer ou apodrecer na cadeia ou em um manicômio. Adoraria ver uma apresentação do Porno Para Ricardo ser interrompida por alunos da Universidade Estadual de Feira de Santana, comandados por um cidadão fantasiado de Che Guevara como fizeram na palestra da blogueira cubana Yoáni Sanchez. E quando tudo acabar, eles ainda ousarão chamar aos outros de reacionários.



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