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Em Feira de Santana ou em Paris.

Que mordam-se de raiva e que comam brioches os detratores de Feira de Santana, mas um estudo feito pela revista Istoé, da Editora Três, aponta a cidade de Feira de Santana como uma das 50 melhores cidades do Brasil. É a quinta cidade com melhores indicadores sociais, a 42ª em sustentabilidade financeira e 32ª com os melhores indicadores sociais na saúde. Por outro lado, uma leitura destes dados pode muito bem indicar que não foi Feira que melhorou e sim, o país que piorou como um todo. Mas, ainda assim, saber que a Princesa do Sertão não seguiu a onda, rolando barranco e ladeira abaixo, também pode ser uma boa notícia. Mas , de qualquer forma, o importante é ser feliz, estando você em Feira de Santana ou em Paris.

Algumas vezes, em determinados momentos da minha vida, eu estive bastante insatisfeito de viver na cidade em que cresci. Daí, então, parti, na esperança e na ilusão de que outras terras me acolhessem com o mesmo calor e a mesma intensidade com que esta terra sempre me tratou. Ledo engano. Ainda que estejamos há anos em outras terras, nelas sempre seremos apenas forasteiros.

Não que ser um forasteiro estando ou vivendo em outras paragens seja exatamente algo que não deveria acontecer. Sim,  se somos feirenses em Feira de Santana, jamais seremos feirenses em Paris. Ou ainda melhor, sempre seremos feirenses na cidade luz. O que nunca seremos mesmo é parisienses.

Também existe uma enorme confusão entre o organismo cidade e seus habitantes e Paris é um bom exemplo disto. Apesar da região central, de velhos prédios e ruas estreitas, e todos aqueles monumentos e locais que só nos damos conta que realmente existem quando os visitamos, a periferia de Paris é comum como é comum a periferia de todas as outras cidades. O encanto da capital da França está justamente naquilo que a sua propaganda soube vender, não no que ela esconde e que só descobrimos quando, finalmente, lá estamos.

Mas quem visitar Paris e manter contato com seus habitantes, pode muito bem sair da cidade com uma péssima impressão. Não adiantará nada a beleza dos monumentos e locais históricos, o que o turista levará de recordação é a frieza, a impaciência, até mesmo a grosseria do típico parisiense. E aí é que está: Que culpa tem Paris dos seus habitantes? Ainda é a mesma cidade tão bela, descrita nos cartões postais.

Em uma de suas canções, Raul Seixas afirma que poderia ser feliz estando "em Feira de Santana ou em Paris", sugerindo assim que a cidade baiana seria uma antítese da francesa. O mano Caetano, por outro lado, detesta a Princesa do Sertão, preferindo a sua Santo Amaro natal. Alguns feirenses e não feirenses que vivem aqui, igualmente costumam tratar a cidade com o desdém que ela não merece.


A cidade é um organismo independente de seus habitantes, pelo menos até certo ponto, e Feira de Santana não é diferente. Eu também não gosto do som alto nos bares, da sujeira nas ruas, da imensa falta de educação no trânsito, da tacanhice de uma certa vanguarda do atraso  que insiste em manter a cidade provinciana e avessa ao progresso. Mas, apesar disto tudo, a minha relação com a minha cidade é pessoal e intransferível. A amo incondicionalmente e apesar de seus defeitos e dos defeitos de seus outros filhos. Eu poderia ser feliz em qualquer lugar do mundo, seja em Feira de Santana ou em Paris. Escolhi ser feliz aqui e ces't la vie, até porque o meu francês é realmente péssimo.






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