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Um disco por ano de vida: The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) – Parte I

Há 28 anos atrás eu trabalhava em uma estatal, mais especificamente na assessoria de comunicação da empresa,  e uma das minhas  atribuições era auxiliar o jornalista responsável na confecção do pequeno meio que circulava internamente na insituição. “Pequeno meio”, para quem não é jornalista, é o popular jornalzinho da empresa.

Acontece que o jornalista responsável era um tanto quanto irresponsável, pois bebia muito no fim de semana e raramente aparecia na segunda para trabalhar. E foi em uma destas ocasiões que o fechamento do jornal, que já estava atrasado, caiu em minhas mãos. Havia uma matéria a ser escrita, um espaço a ser preenchido pelo diagramador e eu não tive dúvidas. Meu disco preferido estava completando 20 anos de existência naquela semana e , em dez minutos, no máximo, o texto estava datilografado e pronto para ser publicado.







Um pulo no tempo e, dois anos depois, no dia 10 de maio de 1989, estou esperando a hora de levar a esposa ao hospital para o nascimento de meu primeiro filho. Resolvi ouvir, enquanto esperava que ela se arrumasse, o meu disco preferido, aquele mesmo que resenhei ás pressas para o jornal da empresa em que trabalhava. E assim, o último disco que ouvi antes de ser pai foi Sgt.Pepper’s Lonely hearts Club Band, dos Beatles.




Nem me fale em Pet Sounds. Se realmente é verdade que Paul McCartney tentou copiar o clássico dos Beach Boys ao elaborar o Sgt. Peppers, ele conseguiu, e com bastante folga, superar o concorrente. Em que pese o fato de eu nem achar que Pet Sounds seja o melhor disco dos Beach Boys, apesar de conter canções absolutamente sensacionais,  o resultado final de Sgt Pepper’s ficou anos à frente deste e de qualquer outro disco pop feito naqueles longínquos ano de 66/67.


Antes de mais nada, é preciso entender Sgt Peppers não como uma continuação, mas como uma progressão natural de Revolver, lançado pelos Beatles no ano anterior. Bem mais ambicioso, o disco já foi concebido para ser um épico e poderia muito bem ter descambado para a paródia, mas, sendo tão bem conduzido por George Martin e Paul McCartney – que, na prática, compôs e produziu o disco – acabou se tornando exatamente o que deveria ser: um marco. Um marco na carreira dos Beatles, um marco na música da Inglaterra, um marco na história da música pop.



Não foi. como afirmam, o primeiro disco conceitual da história. Alguns meses antes, Frank Zappa havia soltado o seu clássico e genial Freak Out e, ainda que pairem dúvidas, já em 1964, os próprios Beach Boys lançaram o que seria, de verdade, o primeiro disco conceito da música pop: “Little Deuce Coupe”, um álbum em que todas as doze músicas tratavam do mesmo assunto, a cultura automobilística. Além do que, até o cantor baiano Pablo do Arrocha já gravou um disco conceitual. Não é esta característica que faz Sgt. Peppers ser grande.


Mas, sem dúvida, foi Sgt Peppers que popularizou o, por assim dizer, conceito, de criar um disco de uma ideia só, ainda que nem todas as músicas do álbum tivessem necessariamente alguma ligação entre si. Seria um dos últimos álbuns que eu compraria dos Beatles, só me faltando, à época, o Let It Be, Abbey Road e o Álbum Branco, três discos dos quais, particularmente, tenho algumas reservas. 

O adquiri em uma promoção, um “balaio” ou saldo, ainda em 1980. É claro que, com treze anos, não entendi nada daquilo na primeira audição, porém o tempo maturaria meus ouvidos e me faria perceber o tamanho da obra prima que se apresentava tão precocemente aos meus ouvidos.  (Continua...)








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