A mecânica da crença na incondicionalidade amorosa é muito parecida com a do acreditar em Deus. É preciso, antes de mais nada, que se tenha fé, e muita fé por sinal, para acreditar que o amor pode ser mesmo uma fortaleza que resistirá aos mais duros golpes disparados através dos canhões da decepção com o objeto de amor e, ainda assim, permanecerá intacto. De fato, eu acredito em Deus. Acredito da minha forma, mas acredito. Já do amor incondicional, deste eu sou completamente ateu.
Uma mãe amorosa, dedicada, presente na vida do filho, sempre receberá mais amor do que uma mãe seca, relapsa ou pouco interessada. Só esta gritante verdade já destrói um dos maiores mitos da incondicionalidade amorosa: De que "amor, só de mãe". Ora, todas as mães, antes de serem mães, são seres humanos, e mães podem sim, gostar mais de um filho do que do outro, ou, até mesmo, simplesmente não gostar de nenhum deles. Ou de todos.
O que causa a ilusão de que determinados amores podem mesmo se sujeitar a todos os aspectos dos humores cotidianos é a afeição. Sentimos afeição e, posso dizer, até igualmente, pelas pessoas que amamos. A afeição, esta sim, é incondicional, porém é estática. Não sentimos "muita afeição" por ninguém. "Muita afeição" já se trata de outro plano: o amor. Tanto que a afeição não termina com o fim de um relacionamento. É justamente a afeição a culpada de levar do amor ao ódio e não nos permitir o conforto de podermos, afinal, ignorar a quem nós, um dia, amamos.

Assim, não pode haver incondicionalidade em algo que é composto essencialmente de condicionalidades. Ainda insistindo no exemplo básico do amor materno, uma mãe que dá a luz a um filho com um grave defeito, ainda mais se este defeito envolver aparência, em um primeiro momento certamente desenvolverá uma rejeição. Tal rejeição, com a aceitação, se transformará em afeição e, mais tarde, em amor. Mas isto não é uma ciência exata. A afeição pode até mesmo nem vir e a mãe rejeitar definitivamente aquele que gerou. Ambas as possibilidades estão inundadas de condicionalidade. Portanto, o amor é, sim, condicional.

O amor obcecado é o único tipo de amor verdadeiramente incondicional e pode ser também, o mais perigoso.deles. Quem tem obsessão pelo objeto de amor é capaz de atos que podem pôr tanto a vida do seu amado ou a sua em perigo. Quem ama obcecadamente tem um déficit de amor próprio e transfere para o outro o amor que deveria sentir por si mesmo. Portanto, o amor incondicional não passa de um veículo para amenizar um distúrbio psicológico e, nesta condição, ele se torna apenas uma ilusão, uma percepção equivocada.
Enfim, chegamos à conclusão de que, saudável ou doentio, não existe amor incondicional. Toda forma de amor e de amar envolve, em alguma medida, uma determinada quantidade de condições. O amor, aliás como tudo na existência, não segue regras pré estabelecidas, formatos rígidos ou vem com alguma garantia de que nunca acabará ou jamais diminuirá de intensidade. Aprender a conviver com isto é o primeiro passo para amar e se amar de verdade.
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