O carnaval é uma festa religiosa. Simples assim. Se você é religioso, pode espernear, reclamar, mas nada irá mudar o fato de que a “festa da carne” está lá, encravada entre o natal e a páscoa, e há uma razão para isto. Aliás, para falar de verdade do carnaval, é preciso falar, antes, do Natal. Do Natal? Sim, do Natal. Em primeiro lugar, sinto muito, mas o Natal não tem tanta relação com o nascimento de Jesus quanto lhe contaram.

A suposta data de nascimento do Salvador, 25 de dezembro, marca o fim do solstício de inverno no hemisfério norte, que é quando se interrompe o ciclo de dias mais curtos e noites mais longas. No dia 22 de dezembro o sol “estaciona” no céu (nasce e se põe exatamente no mesmo lugar), fica parado durante três dias e “ressuscita” no dia 25. Inicia-se, então, um novo ciclo de dias mais longos e noites mais curtas. Quem nasce, ou melhor, na verdade “renasce”, no dia 25, é o sol.
A comemoração natalina é, portanto, anterior, ao nascimento de Jesus. E porque se comemorava o “natal”, muito antes do cristianismo? Porque, como já foi dito, até 25 de dezembro os dias eram mais curtos e as noites mais longas. Menos sol no horizonte representava menos colheita e mais possibilidade de se passar fome. Uma noite mais longa também trazia os perigos de ataque de animais selvagens, mais frio e mais necessidade de guardar alimentos.
Após o solstício de inverno, o ciclo se invertia e os dias passavam a ser mais longos que as noites. Começava-se a semeadura de sementes e por volta de fevereiro não havia nada mais a fazer a não ser esperar a colheita. Então, após trabalharem duro, enquanto aguardavam a safra, os antigos do outro hemisfério se dedicavam a festas que duravam em torno de cinco dias, onde havia bebida, comida, música e, algumas vezes, sexo à vontade. Tais festas eram chamadas “festas da carne”. No final de março, próximo à colheita, temerosos do humor dos deuses, os antigos se arrependiam e pediam perdão pelos pecados cometidos durante a tal celebração. Se a colheita, que ocorria por volta de Abril, fosse boa, era um sinal que os deuses os perdoaram. Então, realizavam uma outra festa, bem mais comedida e “respeitosa”, em forma de agradecimento.
Esta tradição milenar se espalhou por toda a Eurásia e chegou, enfim, à Babilônia. Os babilônicos, que escravizaram os hebreus em um longo período da história, acabaram os influenciando fortemente em suas tradições religiosas. Quando a religião hebreia se tornou monoteísta, abrangeu em seus costumes a comemoração do solstício de inverno, das festividades carnais, da cerimônia de arrependimento e da solenidade de agradecimento pela colheita. O cristianismo manteve essas cerimônias e festas que passaram a se chamar Natal, Carnaval, Quaresma e Páscoa.
O carnaval, entende-se, é o período tradicional para que as “fraquezas da carne” se manifestem. É curiosa a percepção dos antigos sobre a natureza humana. Para manter os homens “na linha” durante 360 dias, os liberavam durante cinco para fazer tudo aquilo que desejassem. Na quarta-feira, tudo aquilo que foi feito era relatado aos sacerdotes da tribo, que escreviam em papiros e, em seguida, queimavam na fogueira em sinal de perdão. Daí a quarta-feira se chamar “de cinzas”. E foi assim, como se diz na música, que Deus abençoou o carnaval.
O puritanismo cristão fez o que nem os judeus fizeram e baniu-se o carnaval do calendário religioso. Assim, a quaresma e a páscoa se tornariam celebrações “soltas”, sem sentido. Para que os cristãos pudessem expiar mais algum pecado extra, associou-se ao ciclo a prisão, tortura e crucificação de Jesus de Nazaré, eventos conhecidos como “paixão de Cristo”. A igreja tirou do homem religioso a possibilidade de se liberar em uma festa carnal, ainda que por um breve período, e ainda lhe deu de bônus a culpa pela morte de um santo. Bom negócio.
Comentários