Há três anos, morria, aos 111 anos de idade, o cidadão feirense Honorato Alves. Trata-se, não de um ancião longevo qualquer – se bem que uma pessoa que viva 11 décadas e um ano não é uma pessoa qualquer – mas de uma referência cultural da cidade baiana de Feira de Santana. Honorato é mais conhecido pelo seu apelido, Noratinho da Pamonha, e pelo cântico-jingle com o qual vendia suas iguarias pela cidade afora. Canto este, facilmente reconhecível por qualquer feirense de mais de 45 anos de idade.

O produto de Noratinho vinha muito bem embalado, em condições de higiene excelentes e, ainda por cima, contava com o marketing sedutor de seu canto, tomado emprestado dos aboios do tempo em que era vaqueiro. Quando se ouvia ao longe o cantar de Noratinho, as crianças - eu inclusive - começavam a infernizar os pais para lhe darem dinheiro para comprar pamonhas. E, diga-se de passagem, os próprios pais esperavam ansiosamente pela vinda do velho Norato e suas delícias.
Noratinho tinha um charme irresistível na forma de tratar o cliente. Se era branco, o cliente virava “meu branco”. Se era negro, se tornava “meu preto”. E todo mundo era dele, não importa que cor tivesse. Norato era o tipo de brasileiro do qual deveríamos nos orgulhar: trabalhador, honesto, empreendedor, gentil e criativo.

Lembro de, até outro dia, ao fazer minhas caminhadas diárias, passar pela porta da sua casa na Rua Papa João XXIII e vê-lo sentado na varanda, já muito velhinho, com a cabeça toda branca. Assim como muitos faziam, pedia-lhe a bênção à qual ele respondia com a voz tênue: - “Deus lhe proteja, meu filho!”. Ao final da vida, já quase cego, Noratinho não tratava mais seus saudosos ex-clientes por “preto” e “branco”. Éramos todos seus filhos. No primeiro dia de outubro de 2012, Deus levou Norato para preparar pamonhas para Ele no céu. De vez em quando, no silêncio da noite, apurando o ouvido em direção ao infinito, dá para ouvir bem longe o canto doce de Noratinho da Pamonha chamando os anjos para lanchar.
Comentários
Comprei muitas pamonhas nas mãos de Noratiinho.
Homem digno e inesquecível.