Parado na porta do clube azul, observo pacientemente o meu jardim. É lá, no meu jardim, que venho gastar algumas horas do meu escasso tempo, em busca de alguma coisa que eu não sei bem o que é. Quando eu entro no clube azul, a luz ilumina o meu rosto e exibe o meu sorriso sem graça para os amigos que por lá encontro. Hoje é o aniversário de alguém, até preciso saber quem é, para que eu lhe dê um abraço burocrático e uma felicitação mecânica. Quando for o meu aniversário, os que frequentam o clube azul farão a mesma coisa. É assim que o clube azul funciona.

O clube azul é enorme. Cheio de salas, silencioso e aparentemente sereno, em um falso torpor que nem de longe é capaz de traduzir a falta de tranquilidade de alguns sócios que o frequentam. Não é um ambiente totalmente familiar, nem um simples bar, onde encontramos os amigos e, muito menos, apesar de às vezes parecer, um asilo de loucos. A maioria nem sabe direito porque vem tanto no clube azul ou porque perde tantas horas visitando aquele lugar. Mas todos os dias nos vemos por lá.
Resolvo ligar a jukebox do clube e ouvir a canção “Heaven” dos Talking Heads. Alguns passam pela porta da sala onde está a máquina de ouvir música, sorriem e fazem um gesto de positivo em aprovação ao que estou ouvindo. Outros nada dizem. A maioria sequer ouve. Estranho como esta canção tem tanta relação com este lugar: “O paraíso é um lugar onde nada sempre acontece”, são os versos de David Byrne que ecoam pelas instalações do clube. Mas o clube azul não é nem o paraíso nem o inferno. Talvez seja o purgatório.
O tédio me consome e resolvo passear pelas salas próximas de onde estou. Em uma delas, uma sócia escancara o retrato da sua mãe moribunda na cara das pessoas e pede a quem for passando que ore por ela. Em uma outra sala, um amigo resolve me chamar e me mostrar um vídeo de um assaltante sendo espancado por populares. Pede a minha opinião. Balanço a cabeça em sinal de “nem sim nem não” e me livro dele em um gesto rápido. Para disfarçar, aceno para um conhecido que me mostra seu filho recém-nascido. Passo a mão na cabeça do bebê. Como as crianças crescem rápido, hein? Era um espermatozoide em seu saco outro dia... E assim vou andando de sala em sala até me cansar..
Retorno à minha sala preferida e encontro em minha mesa o convite de um amigo para jogar. Ele sabe que não jogo, mas me convida mesmo assim. Encontro também um amigo que me convoca para um show da sua banda. Digo que vou, ele fica satisfeito, mas sei que acabarei não indo. Andando pelos corredores do clube azul, passo por uma moça bonita e sorridente que insiste em voltar e me cutucar. Viro a cabeça em sua direção e pergunto o que ela quer com aquilo. Acho que ela esperava que eu a cutucasse de volta em um jogo infantil e sem fim. A dispenso com um cordial boa noite e vou embora.
Já fui embora antes do clube azul e também já voltei inúmeras vezes. Alguns amigos se cansaram tanto de minhas idas e vindas que até mudam de caminho quando eu apareço. Devem me achar meio maluco. Ou certo demais para ser sócio deste clube, vai saber. Eu nem queria voltar, para dizer a verdade. Sou mais feliz, ou menos infeliz, sei lá, quando estou distante do clube azul. Mas então, sinto saudades de alguns amigos que só encontro aqui e acabo voltando para a minha mesa cativa, conformado com a minha sina de eterno dissidente voltando para casa.
Agora eu decidi que não saio mais daqui. Escolhi um cantinho no jardim, onde todo dia planto uma flor e aviso a quem quiser saber que plantei mais uma flor. E ouço músicas na jukebox. Virei um sócio inofensivo. Alguns amigos até aparecem em meu jardim para perder alguns minutos admirando as flores que cultivo. E aproveitam para ouvir boa música.
O meu jardim no clube é o meu portal com o mundo exterior. Com o passar do tempo, percebo que tenho ficado cada vez mais parecido com um autista, fechado em meu próprio mundo. E o meu mundo é meu jardim. Quando eu morrer, eu vou querer que as minhas flores virem plástico. Afinal, sem seu fiel jardineiro, ninguém irá querer cuidar delas como eu cuido.
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