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ABRACE O SEU GARI

Hoje, ao estacionar o meu carro paralelo ao meio fio, recebi uma ordem firme, de uma autoridade constituída, para retirá-lo dali, possibilitando que o servidor da lei pudesse realizar o seu trabalho.  Foi uma ordem firme, porém doce e delicada, mas nem foi o teor daquilo que, na verdade, foi um pedido, que me fez obedecer imediatamente. Eu havia estacionado bem em cima do lixo ajuntado na rua por uma gari e ela queria apenas completar seu trabalho.


Nunca fui de atrapalhar o trabalho de ninguém e, imediatamente afastei o carro para que ela retirasse o monturo de lixo e o pusesse em seu carrinho.  Explicou-me, humildemente, que me  fez o pedido porque, se o seu fiscal visse o lixo ali, a puniria. Respondi, no mesmo tom de voz que ela usara comigo, que jamais bloquearia o serviço dela de propósito e agradeci. Sim, eu agradeci. Afinal é ela quem mantém limpa diariamente a sarjeta  em frente à minha loja, disfarçando a nossa sujeira diária.

Ver aquela trabalhadora se afastando, recolhendo os montinhos de lixo que já havia pacientemente feito, me fez lembrar do jornalista Boris Casoy, que,  durante a apresentação de um telejornal, sem saber que estava no ar, fez troça daqueles a que chamou de “último degrau da escala social”. A fala de Casoy, que deveria ter sido em off mas o áudio vazou, ocorreu quando seu telejornal mostrou dois garis desejando, singelamente, feliz natal aos telespectadores daquele programa.  

Na cabeça do elevado jornalista,  garis,  pela atividade que exerciam, não teriam direito a natais felizes, muito menos desejar coisas boas aos outros. Depois, claro, Boris Casoy pediu desculpas e reconheceu o erro que cometeu. Tá perdoado. Não deve ter ficado bem com os garis da sua rua.

Em uma inversão do pensamento do âncora da Band, eu acredito que o gari é mesmo uma espécie de  autoridade constituída. Poucas pessoas têm mais direito de repreender alguém que joga um papel na rua do que um servidor da limpeza pública. Há quem os use como desculpa para serem sujões, afirmando que, sem os que emporcalham as ruas, não haveria necessidade de quem as limpasse. Pode até ser, mas se não existissem  garis é porque não haveriam os tais sujões, e voltaríamos a uma eterna discussão do tipo quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

Trate bem todos os servidores públicos; aliás, trate bem todas as pessoas. Se não for pela consciência de que devemos tratar de forma digna todos à nossa volta, que seja pela paz de espírito que isto nos proporciona. Mas jamais trate mal um gari. Eles estão aqui e ali, escondidos em seus uniformes, diariamente varrendo nossas ruas. Fazendo o trabalho que jamais faríamos ou que só faríamos se fossemos obrigados.  Facilite o trabalho deles, evitando sujar as ruas ou atrapalhar seu serviço. E, muito obrigado à gari da minha rua, por ter me inspirado em mais um texto diário. 




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