Religiosamente,
todo mês, ela pintava seu cabelo desde que começara a trabalhar e veio, enfim, a sua
independência financeira. Na infância sofria
bullying, como toda criança sofre
bullying por qualquer coisa que faça ou seja. Ser ruiva, ou “enferrujada”, como os colegas a chamavam, era uma coisa que
a incomodava profundamente.
Com seu
primeiro salário nas mãos, ainda quase uma adolescente, foi ao salão de beleza e pintou seu cabelo de
preto pela primeira vez. Queria ser uma “brunette”, na contramão de todas as outras mulheres, que avermelhavam seus cabelos em tons
artificiais na esperança de, ao menos, parecerem ruivas.
Por anos
pintou seu cabelo, ora de preto, ora de castanho escuro. Tanto que a antiga identidade ruiva por pouco não foi completamente
apagada de sua memória. Não descuidava nunca. Todo mês estava no salão, pagando seu dízimo à beleza e à sua nova e
feliz identidade. Dali em diante, nunca mais ninguém
desconfiaria do cabelo de fogo soterrado por aquela morenice camuflada .

Um dia, ao me
mostrar suas fotos de infância, disse rindo que iria me contar um segredo. Fiquei um
tanto apreensivo mas jamais imaginaria que seria apresentado àquela menina
linda de cabelos vermelhos.
Então, finalmente,
eu soube da sua ruivice inata. Explicou, mudando o semblante, a
razão de esconder o seu segredo do mundo. Disse que, assim, ruiva, se achava feia, branca
demais. Desde aquele dia que eu passei a
lhe implorar que voltasse à cor infantil de seus cabelos.
Outro dia ela
resolveu que não seria mais morena e passou a pintar os cabelos de loiro. Foi então que eu conheci a minha outra mulher,
a pin up dourada cuja pele alva refletia o brilho da sua cabeleira na luz da
lua, nas nossas longas noites acordados. Loira, despertou a cobiça dos homens e
a inveja das mulheres. Para mim, não
havia problema. Ela era só minha e
eu agora desfrutava da sua loirice sem efeitos colaterais. Por minha vez, eu também era só dela
e me encantava com aquela blondie fatal que havia aparecido de repente em minha vida.
Mas ela,
afinal, se cansou de ser loira e quis voltar a ser morena. De tanto que havia esquecido que era ruiva, chegou a me dizer que eu a havia conhecido
morena e que ela havia nascido assim. Nascido
assim? “- Renascido”, ela consertou com
um riso de canto de boca.
Alguns dias
atrás ela me perguntou o que eu queria ganhar no dia dos namorados.
-“Quero você ruiva”, respondi imediatamente. Ela me pediu para repetir e eu disse de novo: -“Quero ver, pela primeira vez na vida, depois de muitos anos de casado, como é
você de verdade. Quero conhecer, finalmente, a sua real aparência”.
Seu rosto
expressava a tristeza que sentiu com o inesperado pedido. Ela queria pintar o cabelo de preto e eu
estava lhe pedindo o que ela mais temia, que voltasse a ser esteticamente rubra. Pediu um tempo para pensar e, ontem,
finalmente foi ao salão de beleza se encontrar com a menina ruiva da infância como uma judia que se dirigia a uma câmara de sacrifício.
Ela voltou ainda mais linda do salão de beleza. Me
lembrou imediatamente aquelas mulheres nórdicas, dinamarquesas ou suecas,
ávidas por expressar fisicamente o amor que sente espiritualmente. Mas a
menina ruiva ficou triste. A propósito de
ter sido tão elogiada pelos colegas da faculdade, se olha no espelho e não se reconhece mais. Ou
se reconhece demais, talvez seja este o problema..
Tenho até pena
da sua tristeza. No mês que vem, se ela
não se acostumar, a deixarei livre para
voltar a ser morena ou o que ela bem entender. Comemorou meu anúncio como quem comemora um gol. Enquanto isto,
permaneço admirando a beleza triste e etérea da minha flor
renascentista. A minha menina ruiva, enfim, é apaixonante. Mas seria assim de qualquer jeito, até mesmo se fosse careca.
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