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OS DOIS SAPATINHOS.

Eu hoje comprei dois presentes, um para cada filho.  São presentes que nenhum dos dois irá usar. Nada menos que dois sapatinhos infantis. Bati os olhos nos dois pares, achei que um par deles combinava com um e o outro par com o outro filho. E os comprei, a despeito de que eles nunca poderão usá-los, pois já não são mais crianças e seus pés não cabem mais neles.
     
Dizem que os filhos são nossa verdadeira riqueza.  Eu diria que são a única.  Filhos não fazem a mínima ideia do que realmente significam até que eles mesmos se tornem pais.  Aí se dão conta do que são na vida daqueles que os criaram.

Então, que guardem o presente que lhes dei para quando forem pais e calçarem eles mesmos os sapatinhos ofertados por mim nos pés de seus filhos.  Porque é isto mesmo que nós, os pais, fazemos: Calçamos seus pés e dizemos para darem seus passos a frente. E fingimos que não nos importamos, que não iremos ampará-los se caírem, mas, na verdade, estamos ali, com as mãos no ar, prontos para segurá-los.

Filhos, eu tenho dois.  Um deles,   o mais velho,  nasceu quando eu mesmo ainda era uma criança,  recém saído da adolescência, aos 23 anos.  Não foi planejado, mas foi muito esperado. Lembro até hoje de quando o médico fez a ultrassonografia e constatou que era um menino:
      - Olha lá a  "torneirinha", é um garotão!, disse o médico.
      - Mas isso aí não é a perna? retruquei de volta.
      - Bem, ele não tem três pernas, isto eu posso garantir!. O doutor encerrou, sabiamente,  a questão.

Enquanto  ele crescia na barriga da mãe,  íamos comprando roupas,  fraldas,  sapatinhos, cueiros, mamadeiras e tudo mais que um bebê precisava para vir ao mundo confortavelmente.

Meu filho veio ao mundo em um 10 de maio. Era para ser no dia anterior, mas sua mãe se atrasou para dar entrada no hospital e, quando chegou,  não haviam mais vagas.  Não foi parto normal, ele sabiamente se recusou a sair do ventre materno. Quando não foi mais possível esperar, ele foi expulso do seu casulo de escuridão e conforto.

A minha filha, eu não fiz,  não vi nascer, não a acompanhei nos primeiros cinco anos de vida, porque, simplesmente, não a conhecia. Porém, ela, desde o início, me escolheu como pai.  Ela não parece fisicamente comigo. Na verdade, é parecida mesmo com a própria mãe, minha esposa.  Mas, como eu me regozijo quando me dizem, e dizem isto frequentemente:
       "- Se fosse sua filha de sangue, não pareceria tanto!".

Mas ela é minha filha de sangue, sim, quem disse que não?  Temos o mesmo sangue, vermelho e brilhante. Se minha filha me ensinou que laços de sangue não são tão importantes, meu filho me ensinou que o sangue fala, o sangue imprime. São duas pessoas diferentes, entre si e de mim mesmo, mas, ao mesmo tempo, tão parecidas.

Hoje, eu vejo em minha filha uma parte de mim da mesma forma que vejo em meu filho uma outra parte do que sou. E as duas partes se completam. Acho que é a isto que chamam paternidade.

Não me imagino distante dos meus dois filhos. Estar perto deles é essencial para o meu equilíbrio. Daí tê-los dado hoje dois pequenos sapatinhos de presente.  Pois um dia, voltarei a ser criança e eu mesmo os calçarei.  Então, afinal, o ciclo da existência se confirmará e o sentido da vida, a que tantos procuram, finalmente será encontrado.

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