Jamais serei
imparcial o suficiente para fazer uma crítica neutra a respeito do disco “Careful”,
segundo lançamento da banda
norte-americana The Motels. Lançado em 1980 e comprado por mim em uma
promoção (ou “saldo”, para quem é do Sul) ainda em 1981, “Careful” foi, de
fato, a trilha sonora mais que perfeita
da minha pré-adolescência.
Eu posso dizer
que passei definitivamente a ouvir rock -
e, consequentemente, me auto intitular “roqueiro” - a partir deste disco. Com “Careful”, eu troquei de turma. Costumava andar com um
pessoal que ouvia muito funk,
rhythm’n’blues e disco music. Até
tentei, em vão, introduzi-los no maravilhoso mundo do “new rock”
(era assim que a New Wave era chamada no Brasil nos primeiros anos), porém, os
meus amigos estavam encantados demais
com o mais recente disco de Gilberto Gil,
o “Olhar”, lançado naquele ano.
“Careful”
é, provavelmente, o único disco do universo pop o qual eu sei
cantar junto todas as letras. E, sem
acompanhar, muito provavelmente, eu
canto metade do disco. E, santa
surpresa, Batman! Eu, que não sou de tocar músicas dos outros, deste disco, pelo menos, eu toco duas, sem muita dificuldade para lembrar os acordes.
Provavelmente,
“Careful”
não
é mesmo nada demais. A minha
relação afetiva com o disco é que faz
dele um clássico absoluto das minhas prateleiras. Adquiri, como já disse, a primeira versão do álbum em LP, ainda em
1981. Passei a adolescência ouvindo o
disco até que, em 1990, esperançoso de trocar toda a minha coleção de LPs por
CDs, coloquei-o à venda na loja de discos usados que acabara de abrir.
Só que, àquela altura, o disco
da banda de Martha Davis já havia sido lançado no formato CD e já estava fora de
catálogo. Só o encontraria novamente em
1993, em uma viagem a São Paulo, em uma
das lojas da Galeria do Rock. Mas o
achei tão caro, mas tão caro, que resolvi não comprá-lo, apesar da incontestável importância afetiva daquele disco. Ainda não havia mp3 e o jeito foi adiar o
sonho de ter “Careful” de volta em
minha coleção. No ano seguinte, retornei
a Sampa – os paulistanos não chamam São Paulo de “Sampa” - e encontrei o disco no mesmíssimo local. Até a prateleira era a mesma. Provavelmente só
foi retirado do local para limpeza. Desta vez não bobeei e o levei para casa.
Eu tinha um
daqueles combos que pegavam “trocentos” CDs e ficavam no porta-malas do carro. Um dia o aparelho deu defeito e um dos discos
emperrou. Dava para ouvir o barulhinho
da base do toca-CD arranhando o disco quando ligava. Quando abri o dispositivo, descobri que o
premiado com tão pouco cuidado fora justamente o meu querido “Careful”.
Muitos anos
depois, já com o advento do Napster, baixei as músicas do disco uma a uma e queimei
um CD-R colocando-o na capa original, que havia guardado de recordação. É justamente esta coletânea meio colcha de
retalhos que mantenho até hoje, tanto em CD quanto em arquivo de mp3.
Mas, vamos ao disco: “Careful” abre com “Danger”, single de trabalho, uma
canção radiofônica muito bem temperada entre o
techno-pop retro e o punk-pop que fazia a delícia dos new wavers da época. A voz de Martha
Davis é marcante e impressiona desde o começo do álbum. Na
sequência, “Envy”, uma mordaz canção punk sobre a inveja, com uma das melhores letras já sobreposta a
uma melodia no estilo. “Careful”, a faixa-título e o outro hit do disco, avança ainda mais na estratégia da utilização
de sintetizadores dos anos 70 de forma “moderna”. O pop
convencional de “Bonjour Baby” e o
clima bluesy de “Party Professionals” encerram o lado A.
Dali em
diante, os Motels ficariam a um
passo da consagração com a gravação de “Take
My breathe Away”, tema de sucesso do filme Top Gun, tendo sido preteridos em favor do Berlin, cuja gravação estourou mundialmente. Nada do que os Motels fizeram, antes ou depois, pode ser comparado a “Careful”. A banda
chegou a lançar alguns singles de sucesso como “Take the L” e “Only The
Lonely”, mas a energia rocker havia sido trocada por uma
elegante, porém fria, sonoridade
pop. Martha Davis não entrou para a história, porém seu segundo disco será sempre ouvido por
mim, até o fim dos meus dias.
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