Pular para o conteúdo principal

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA: REVOLVER - THE BEATLES

Não tenho absoluta certeza se Revolver foi o primeiro disco de carreira que comprei dos Beatles.  Antes disto, já havia adquirido a coletânea dupla Rock And Roll Music e, salvo engano, também o fantástico disco de estreia, o  Please Please Me.  Mas foi, sem dúvida, Revolver  e toda aquela psicodelia pop na medida certa, o disco que me fez, definitivamente, me apaixonar pelo quarteto de Liverpool.


Provavelmente, Revolver é o primeiro disco de power pop da história. Marca definitivamente o rompimento dos Beatles com a sonoridade mersey beat (com larga influência da Motown) do início dos anos 60 e mostra caminhos para o que seria feito na música pop nas décadas seguintes. Abre brilhantemente com a canção Taxman, cujo riff seria citado mais tarde em canções do The Jam, Ira! e Paul Collins Beat.  Segue com o maravilhoso arranjo de cordas de Eleagnor Rigby, “truque” que também seria repetido “ad infinitum” pelas bandas de rock dos anos 80.

A faixa seguinte é I’m Only Sleeping, com sua melodia para a frente em um arranjo falsamente acústico. Love You To é mais uma das esquisitices orientais de George Harrison e bem poderia figurar no lado B do disco, em uma troca de lugar com I want to tell you, a outra contribuição do guitarrista. Mas, ainda assim, não compromete. Em seguida vem Here, There and Everywhere, o pedido de desculpas de Paul ao mundo por ter cometido aquela coisa melosa chamada Yesterday, alguns discos antes.  Nesta faixa, Paul mostra como ainda pode ser meloso sem ser necessariamente melado.

Perdida no meio de tão boas canções, a infantil Yellow Submarine soa infinitamente melhor do que no lado dos Beatles na trilha do desenho animado. O lado A encerra com She Said She Said, outro petardo power pop que poderia estar em um disco de qualquer banda metida a moderninha no final dos anos 70.

Abrindo o lado B, Good Day Sunshine também tem aquele ar - 
presente em todo o disco - de ser uma canção moderna demais para a época, e funciona como uma espécie de preludio para And Your Bird Can Sing, com um solo de guitarra na  introdução e no meio da música que poderia muito bem figurar entre os melhores de todos os tempos.

For no one é uma das melhores canções já escritas por Paul McCartney em todos os tempos, com um belíssimo arranjo com trompas, trazendo Paul ao piano. Dr. Robert, uma divertida canção sobre o fornecedor de drogas do grupo. No Brasil, inspirou a inocente A irmã do Dr. Robert , do grupo gaúcho TNT, e a nada inocente Dr. Raymundo, dos cariocas Lobão & Os Ronaldos. I want to tell you é a outra  excelente contribuição de George Harrison para Revolver. Foi para esta música que o músico literalmente inventou um acorde. A canção fala sobre a dificuldade de expressar sentimentos em letra e música e, para denotar tal dificuldade, Harrison criou um acorde, até então, inédito, reutilizado por seu companheiro de banda John Lennon em She's so heavy, faixa do disco Abbey Road.

Em seguida, vem, não só a melhor música do disco, mas também uma das melhores de toda a discografia dos Beatles. Conta a lenda que Got to get you into my life é uma ode à maconha feita por Sir Paul, um entusiasta do uso de Cannabis. Verdade ou não, a canção, mais tarde brilhantemente regravada pelo Earth, Wind & Fire, é uma das melhores produções no estilo Motown feitas fora da gravadora americana. Encerrando o disco, a soturna Tomorrow Never Knows, que antecipou a onda gótico-psicodélica da primeira metade dos anos 80. A faixa seria regravada inúmeras vezes por bandas de diversos estilos neste período.

Além de ser, 14 anos antes, o primeiro disco dos anos 80, Revolver tem o mérito de ter aberto as portas da percepção para John, Paul, George e Ringo. Definitivamente livres dos terninhos e de tudo que se relacionava com a beatlemania, os fab-four estavam prontos para cometer o álbum mãe de todos os álbuns, o seminal e único Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CARTA ANÔNIMA

 Quando eu era menino, ainda ginasiano, lá pela sexta série, a professora resolveu fazer uma dinâmica bastante estranha. Naquele tempo ainda não tinha esse nome mas acho que ela quis mesmo fazer uma dinâmica, visto pelas lentes dos dias atuais. Ela pediu que cada aluno escrevesse uma carta anônima, romântica, se declarando para uma outra pessoa.  Eu confesso que não tive a brilhante ideia de escrever uma carta anônima para mim mesmo e assim acabei sem receber nenhuma carta falando sobre os meus maravilhosos dotes físicos e intelectuais. Já um outro garoto, bonitão, recebeu quase todas as cartas das meninas da sala. E sabe-se lá se não recebeu nenhuma carta vinda de algum colega do sexo masculino, escrita dentro de algum armário virtual. Eu, é claro, escrevi a minha carta para uma menina branca que nem papel, de óculos de graus enormes e um aparelho dentário que mais parecia um bridão de cavalos. Ela era muito tímida e recatada, havia nascido no norte europeu mas já morava...

Deus prefere os ateus.

N ão sou ateu. Até já pensei que era, mas não, realmente, eu não sou. Isto não me faz melhor ou pior do que ninguém, mas eu realmente acredito em um Deus Criador. Bem que eu tentei ser ateu, mas a minha fé inexplicável em alguma coisa transcendental nunca me permitiu sê-lo. Também não sou um religioso, eu sou apenas um crente, ainda que tal palavra remeta a um significado que se tornou bastante negativo com o passar do tempo. Q uando falo aqui em ateu não falo daqueles ateus empedernidos, que vivem vociferando contra Deus, confundindo-o de propósito com o sistema religioso que O diz representar. Estes são até mais religiosos que os próprios religiosos, ansiosos de que convencerem os outros, e a si mesmo, de que um Deus não existe. Quando menciono os ateus a quem o Divino prefere, eu me refiro àquele tipo de pessoa que não se importa muito se Deus existe ou não, mas, geralmente, são gentis, solícitos, generosos, éticos e muito mais honestos que muitos religiosos. E u bem que tent...

LEMBRANÇAS DE WILSON EMÍDIO.

E sta é uma história sobre rock e amizade. Não importa muito se você nunca ouviu falar de  Wilson Emídio.  Certamente, se você gosta das duas ou de uma das coisas - rock e fazer amigos - , você vai gostar do que vai ler aqui. E m 1984, eu tinha uma banda de rock chamada Censura Prévia. Ensaiávamos na sala de estar de minha casa, assim como os Talking Heads ensaiavam na sala de estar do David Byrne no início da carreira. Tanto que, ao ver aquelas fotos do disco duplo ao vivo da banda  nova-iorquina,  me remeto imediatamente àqueles tempos. E, por mais incrível que possa parecer, nós tínhamos duas fãs. Eram duas vizinhas que não perdiam um ensaio, sentadas no sofá enquanto se balançavam, fazendo coreografias, rindo muito e tomando refrigerante. Um dia elas resolveram criar  um fã-clube para o nosso conjunto amador. Na verdade, elas mandaram uma carta para a revista Rock Stars,   uma publicação de quinta categoria, mas baratinha e acessível aos quebrados ...