Pular para o conteúdo principal

BOTA PRA FUDER PARTE II - METÁSTASE.

Com o cair da noite, começaram a chegar as figuras mais esquisitas que eu jamais tinha visto em meus quinze anos de menino do  interior da Bahia.  Seres punks, headbangers,  góticos, todos vestidos de preto,  maquiados, ou mesmo  cabeludos  com pulseiras de espinhos.  Nós, que éramos tratados com excêntricos na escola e na vizinhança, parecíamos as pessoas mais absolutamente normais do mundo, perante aquela fauna e flora.
            
 Flora sim, porque, neste show,  tivemos contato com as meninas do rock.  Até então, acreditávamos piamente que mulheres roqueiras eram apenas uma invenção da indústria fonográfica para nos obrigar a continuar comprando discos de cabeludos fedorentos. As mulheres que estavam naquele show eram lindas, perfeitas, sedutoras e, claro, nem se davam conta que eu existia.

                Na prática foi meu primeiro show de rock.  Já tinha acompanhado minha mãe a um show dos Golden Boys na infância – ela não teve com quem me deixar e, naquele tempo, o juizado de menores não era tão rigoroso assim.  Já tinha, acreditem se quiser, até assistido um show de jazz,  dos Health Brothers, os dois irmãos integrantes do Modern Jazz Quartet,  onde hoje funciona o Cuca, em Feira de Santana, nos idos de 81. Mas, rock, rock de verdade, sem dúvida, aquele show  foi o primeiro.

    Definitivamente eu não me preparei para o que vi e ouvi naquela noite. Não assisti  um show de virtuosismo de nenhum músico, mas uma barulheira com uma energia sonora cavalar como nunca havia ouvido antes.  Foi ali, no palco, que o Camisa de Vênus definitivamente me conquistou.

  Me posicionei ao lado esquerdo, onde costumava ficar Karl Hummel.  Repetiria a ação em todos os shows dos baianos a que assistiria depois. Karl era, literalmente, um show a parte no show a parte que era uma apresentação do Camisa de Vênus.  Com um olhar vidrado e empunhando a guitarra como se fosse uma metralhadora cuspindo fogo, atiçava o público que, ao seu comando, pulava e dançava como se não houvesse amanhã nem ainda Renato Russo. E, de fato, ainda não havia, pelo menos o amanhã.

            Hummel também incitava o público a entoar o mantra “bota pra fudê”, que se tornaria uma marca registrada  do grupo.  Eu  ainda era um baterista, mas estava decidido a tocar guitarra, mal, porém energicamente, tal qual meu novo ídolo.

 Sai daquele show como uma dupla sertaneja, transformado e transtornado.  Fui obrigado a rever muitos dos meus conceitos  já, ou ainda, engessados nos meus quinze anos.  Fui confrontado nas letras berradas por Marcelo Nova com a minha própria conformidade com o sistema, seja religioso, econômico ou moral-social.  Ao chegar em casa peguei meu caderno de poesias, já quase cheio,  e pensei em rasgá-lo ou queimá-lo.  Não fiz nem uma coisa nem outra. Arranquei as páginas em branco e na contra capa rabisquei:  -“ Não  escrevo mais coisas como estas.  Vendi minha alma ao punk rock”.  Datei e colei o meu ingresso do show do Camisa ao lado.

Comentários

IMAGEM FSA disse…
Valeu Renato. Grande banda belo texto.
IMAGEM FSA disse…
Parabéns. Grande banda belo texto.
Unknown disse…
Foi a Gênese de um novo Big Bang?

Postagens mais visitadas deste blog

EU TE AMO VOCÊ

Já parou para pensar na futilidade e até mesmo na banalidade das canções pop? No filme "Mais e Melhores Blues" o personagem de Denzel Washington faz uma longa e divertida explanação sobre o uso da palavra tonight (noite) no pop anglofônico enquanto improvisa um jazz. Apesar da noite já ter sido cantada em verso e verso no pop brasileiro, o equivalente tupiniquim ainda é o velho e bom "eu te amo". O compositor brasileiro é um autêntico romântico. Romântico no sentido literário do termo. Em sua imensa maioria, o letrista pop nacional ainda não atingiu o parnasianismo, quiçá o modernismo. E aí não vai nenhuma crítica. Eu mesmo, enquanto letrista, sou também um autêntico romântico, ao menos na maioria das vezes. Está em nossas veias latinas a vontade de amar, sofrer e decantar o amor. E estou falando aqui do acessível, do que toca no rádio - o que não é muito meu caso, bem verdade - ou do que é feito com a má intenção de tocar - o meu caso. É claro que o alegado romanti...

O SONHO

  Oi. Hoje eu sonhei contigo. Aliás, contigo não. Eu sonhei mesmo foi comigo. Comigo sim, porque o sonho era meu, mas também com você, porque você não era uma mera coadjuvante. Você era a outra metade dos meus anseios juvenis que, quase sexagenário que sou, jamais se concretizaram. Não que a falta de tais anseios me faça infeliz. Não faz. Apenas os troquei por outros, talvez mais relevantes, talvez não. Hoje de madrugada, durante o sonho, eu voltava a ter 20 anos e você devia ter uns 17 ou 18. Eu estava de volta à tua casa, recebido por você em uma antessala completamente vazia e toda branca. Branca era a parede, branco era o teto, branco era o chão. Eu chegava de surpresa, vindo de muito longe. Me arrependia e queria ir embora. Você  queria que eu ficasse, queria tirar minha roupa ali mesmo, queria que eu estivesse à vontade ou talvez quisesse algo mais. Talvez? Eu era um boboca mesmo. Você era uma menina bem assanhadinha, tinha os hormônios à flor da pele e eu era a sortuda ...

METEORO NOS DINOSSAUROS

Um dia Deus ganhou consciência. Não se autodenominava Deus, é bem verdade,  este é um nome que os homens lhe dariam bem mais tarde. Mas foi então que Ele percebeu onde estava. Era tudo um imenso vazio. Não sabia se fora criado, nem porque estava ali. Percebia suas formas, seus braços, suas pernas, seu corpo e percebeu também que podia imaginar. Sim, imaginar. E logo se deu conta que tudo o que Ele imaginava tomava forma. Foi então que fez um ser à sua semelhança e quando o criou tudo se iluminou à sua volta. Chamou-o de Lúcifer pois entendeu que deveria chamar aquele ser por um nome. Ainda que criasse outros seres idênticos a Ele, Lúcifer permaneceu sendo o anjo preferido de Deus. Deus também percebeu que poderia criar pontos no vazio e os chamou de estrelas. À sua volta Deus criou planetas e não se cansava de imaginar outros tipos de astros siderais. Ele havia descoberto um sentido para a sua existência. Ao todo chamou de universo. Criou o sol, em sua volta alguns planetas e a um,...