O último disco do cantor romântico baiano Pablo se chama, singelamente, "Desculpe aí". Poderia ser muito estranho que um álbum de um artista, seja ele de que estilo for, se intitule com um pedido de desculpas, mas, a considerar que Pablo é um artista do estilo conhecido como "arrocha", agora rebatizado como "sofrência", tal dístico faz absolutamente todo o sentido.
Pablo se lançou no mercado fonográfico, alguns anos atrás, com uma semi-paródia da canção Let It Be ("Deixa Estar"), gravada pelos Beatles em 1970. Ao espírito conformista da Let It Be original, Pablo adicionou doses cavalares de dor. Sim, dor. Dores de amores, especificamente. Em tão pouco tempo de carreira, o jovem cantor baiano despertou no homem latino, sul americano, brasileiro, nordestino e baiano, a consciência do chifre. Ainda melhor, a onisciência do sentimento de traição.
Certa vez, o cantor irlandês Bono Vox, líder da banda U2, definiu perfeitamente a diferença entre as músicas românticas brancas e negras. Enquanto a, música negra apregoava o amor sexual, forte, libidinoso, da conquista e do enlouquecimento na cama, a música branca entoava o amor esquecido, a perda para outro da mulher amada e a sensação de que a musa era um objeto inalcançável, uma espécie de deusa a ser posta em um altar e adorada. Acrescente-se a estas duas vertentes, uma terceira, a música de corno.
Arrocha, sofrência, sertanejo universitário, não importa o nome. Músicas que contém letras que pregam a subserviência à mulher traidora e ao elemento adjunto da traição, e propagam a ideia, não apenas da aceitação mas do desejo do chifre. Canções que reconhecem a própria inferioridade do homem frente à mulher e seu amante. Composições em que o personagem promete dar uma surra naquele que lhe tirou a amada se ele não a fizer feliz. Tudo isto é música de corno. E, cada vez mais, a música popular brasileira se afunda em um mar de chifres, chifradores e chifrudos.
Em minha rua, até pouco tempo, havia uma espécie de reunião noturna, a qual eu chamava desdenhosamente de "confraria dos cornos". Não que eu esteja, em nenhum momento, duvidando da honestidade das mulheres daqueles homens. Aliás, a grande probabilidade é que elas sejam mesmo senhoras dignas, fiéis e respeitáveis. Seus maridos, eles sim, é que parecem nutrir a indisfarçável fantasia de, um dia, serem traídos, abandonados e trocados por outro.
Tal grupo se reunia na frente da porta de um dos meus vizinhos, ligava o som bem alto e dava início a uma sequencia verdadeiramente aterrorizante do que há de pior na MPB. Canções absolutamente terríveis, com letras pavorosas, sempre variando sobre o mesmo tema: a traição. A traição e a aceitação da traição. Ainda melhor: a traição, a aceitação da traição e o desejo de ser traído. Um belo dia, lá pela meia-noite, resolvi acabar com a festa e chamei a polícia. Hoje em dia, eles não mais se reúnem, pelo menos não mais a 50 metros de minha casa. Mas fica sempre a interrogação: Porque este tipo de música faz tanto sucesso entre homens tão machistas que, na vida real e cotidiana, são tão intolerantes e que se incomodam até que a esposa olhe para o lado?
Os estereótipos, nada além deles, regem as definições de Bono Vox para o que seria a música branca e negra. O compositor negro representaria o sedutor, sexualizado por natureza e capaz de dar prazer à mulher amada O menino branco seria a sincretização da fraqueza emocional com a incapacidade de satisfazer o objeto de desejo. Mas, ainda assim, encontram um pé na realidade, ainda que, como todo estereótipo, se espatife no primeiro menino negro inseguro ou naquele garoto branco cheio de amor e testosterona. Difícil mesmo é compreender porque o macho latino, nordestino e baiano, resolveu, de uma hora para outra, hipervalorizar a traição feminina e não só se assumir, como ainda, se vangloriar do seu status de corno.
Sim, foi mesmo de uma hora para outra. Até outro dia, estas mesmas pessoas que hoje passam a mão na testa enquanto escutam música, ouviam o igualmente terrível afropop, com suas letras paupérrimas mas que evocavam a sensualidade, ainda que descabida e quase violenta. Em que momento da história da música baiana, os homens deixaram de "ralar o pinto", de "chupar toda" para fazer "bilu, bilu, bilu" para o ricardão escondido no armário, esta é a verdadeira incógnita da música da minha terra.

Hoje, nos cinco dias de carnaval, a "sofrência" já divide os palcos e camarotes com o pagodão e a sacolejante axé-music - ou o que restou dela. Homens de aparência séria compram caríssimos abadás de blocos em que as únicas atrações são os artistas de arrocha e sofrência, unicamente para dançarem sozinhos com o punho fechado na testa simulando o chifre. Não há muito como entender porque o sentimento de perda, de traição, se sedimentou de tal forma no baiano, outrora tão viril e machista. Só nos resta, a nós, os homens que ainda temem a traição da mulher amada, nos indignarmos com esta música derrotista, chata e repetitiva que tomou conta da nossa amada Bahia. E seguirmos sem aceitar as desculpas de Pablo.
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