Ontem, como se anunciasse a iminência da sua morte, as canções do músico gaúcho Júpiter Maçã tocaram repetidamente no aleatório do meu player de mp3. À tarde, o cantor faleceu, aos 47 anos. Oficialmente, a causa foi uma queda sofrida em casa, que resultou em ferimentos na cabeça. Oficiosamente, sua morte se deu por múltipla falência dos órgãos. Júpiter, já há algum tempo, lutava contra uma cirrose adquirida em decorrência do intenso abuso de álcool e drogas.
Júpiter Maçã é o nome artístico adotado pelo cantor, compositor e guitarrista Flávio Basso em sua carreira solo, após se desligar de sua antiga banda, os Cascavelletes. Muita gente o associa a outro músico, o inglês Syd Barrett, primeiro guitarrista do Pink Floyd, que também encerrou a carreira prematuramente devido aos mesmos abusos dos quais foi vítima o brasileiro. E a associação, de fato, não é nada gratuita. Júpiter Maçã sempre zelou cuidadosamente por passar a impressão de ser uma espécie de versão nacional do inglês Barrett. Mas, na verdade, o ex-vocalista dos seminais Cascavelletes estaria muito mais para uma espécie de Jimmy Hendrix tupiniquim.
Eric Burdon, ex- vocalista da banda inglesa Animals, quando se radicou em São Francisco, conviveu intensamente com Hendrix em seus últimos dias. Costumava dizer que o guitarrista negro morreu, não tanto pelo uso descontrolado de drogas, mas do incentivo que as pessoas à sua volta lhe davam para se drogar. Segundo Burdon, todos queriam ver "o negão ficar doido". No Brasil, muito mais do que apreciar o inovador trabalho do gaúcho, todos queriam ver o sulista endoidecer.

Em uma certa fase de sua curta vida, Júpiter Maçã passou a se apresentar completamente sóbrio. Fazia parte da sua própria loucura passar um tempo lúcido. Acompanhado de uma banda da qual fazia parte Luís Thunderbird, suas apresentações passaram a ganhar mais consistência, mas perderam bastante em encanto. Ninguém, absolutamente ninguém, queria ver o músico cantar sem errar as letras, sem rolar pelo chão e sem embolar a voz.
Como produto de mídia, Júpiter Maçã não era mais do que um palhaço. Um clown decadente pronto para animar o público-rei até que este lhe apontasse o polegar para baixo e lhe pedisse a cabeça. Apesar de muito talentoso, era um compositor para lá de superestimado. Chamá-lo de "gênio" é o mesmo que desperdiçar a palavra. Se Maçã é gênio, do que chamaremos Mautner, Gil e Caetano, algumas de suas declaradas influências? Porém, Flávio Basso estava mesmo muito à frente do seu próprio tempo, por mais clichê que possa ser dizer isto. E ainda assim, representava um elo consistente com um passado recente da MPB com o qual parece cada vez mais difícil de se conectar legitimamente.
Algum tempo atrás, o artista ficou conhecido nacionalmente por uma lamentável tentativa de entrevista feita pelo "matador de passarinho" Rogério Skylab, em um programa de canal fechado. Basso se embebedara, ainda no avião, a caminho do Rio de Janeiro, e chegou a cochilar durante as gravações do programa. Houve quem exultasse de ver o gaúcho em um estado completamente deplorável e chegasse a burilar yeahs e ohs. Mas ali estava uma estrela em seu ocaso. Afinal, este é o grande circo do rock and roll.
Mais um palhaço morreu, pois então, viva o circo! Ficam, na vida real, aqueles que conviveram com o homem, sem a referência de um ser humano a quem conheciam e que se foi prematuramente. Vai-se o indivíduo Flávio Basso, soterrado pelo mito Júpiter Maçã. Um brinde aos que sobreviveram ao espetáculo, pois mais um bobo da corte, finalmente, se foi. Resta agora apenas a lenda, já que o homem, a partir de hoje, estará apodrecendo em um caixão. Com ele, vai muito mais do que alguns discos irregulares e alguns vídeos tresloucados no You Tube. Vai uma alma irrequieta, confusa e infeliz. - 'Toca Júpiter Maçã!", é apenas o que nos resta pedir.
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