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FAQ: PAROU COM A ZELVIS PORQUE? (ATUALIZADO 2021).

   (Nota de 2021 - Este texto foi escrito logo após o fim da Zelvis, a versão axé-ska da LP & Os Compactos. Reflete o que eu pensava naquele momento em que eu estava cansado de explicar para todo mundo que me perguntava porque a banda acabou. Ao longo do texto contém notas escritas hoje, enquanto preparo o texto para republicação).

          Eu realmente desisti de fazer parte de bandas, mas, a princípio, não desisti, pelo menos ainda, de fazer música, no sentido de compor.  (Nota de 2021: Desisti de compor também). Não que isto importe muito ou que o mundo esteja muito preocupado comigo e com minha criatividade. Graças a Deus, não está.  Minha saída do cenário musical feirense -  se é que alguma vez já estive dentro dele - se deu no mesmo nível da minha desimportância. Ou seja, o palco não me fez falta assim como o palco não sentiu falta de mim. E estamos todos muito bem, obrigado.

A minha desistência da “vida artística”  trouxe alguns efeitos colaterais desagradáveis e inesperados como o corte de relações por parte de alguns dos integrantes da Zelvis, a minha antiga banda. (Nota de 2021: As pazes já foram feitas e as amizades seguem sendo refeitas).  Mas fazer o que? Tenho a minha consciência tranquila que joguei limpo, fui claro e transparente em formalizar a minha saída.  Avisei que  não estava sequer saindo completamente da Zelvis, mas que não mais ensaiaria semanalmente, o fazendo apenas quando houvessem shows marcados que não fossem produzidos pela própria banda.

Um fato, aliás, dois fatos, foram decisivos para que eu tomasse esta decisão em relação a meu antigo grupo.  Fizemos dois shows no Bar Jeca Total, cada um com uma banda diferente fazendo a abertura.  Acontece que foram dois eventos em que tocamos praticamente para o público destas duas bandas com o detalhe que elas não foram remuneradas por isto.  Ocorreu a primeira vez com a banda Supernova, o que já me deixou  em estado de alerta.  Quando, há exatos um ano atrás,  próximo ao micareta,  tocamos com a banda Rivendell e só compareceram amigos e familiares deste grupo - que fazia sua primeira apresentação -, percebi que era mesmo a hora de parar.  Sem público, sem show. Simples assim.

Também deixei bem claro que só permitiria o uso futuro de minhas canções em um projeto em que eu mesmo estivesse envolvido. (Nota de 2021: Já liberei todas as composições da banda para que o cantor delas faça com elas o que desejar). Afinal, já era hora de todos nós andarmos com as próprias pernas, compormos nossas próprias músicas e formarmos nossos novos grupos com material verdadeiramente inédito. (Nota de 2021: Isso foi uma indireta para Zé e seus projetos de bandas cover...rs!). Ou desistir de tudo, exatamente como eu fiz.

Alguns dos meus antigos colegas da Zelvis preferiram desistir do projeto de vez a aceitar minhas novas condições  e, de quebra,  desfazer a amizade de mais uma década. Fazer o que? Com quase cinquenta anos não ando mais em bando. Se  optaram por isto, que seja. Mas não fui eu que abandonei o barco, embora quisesse muito pular fora de tudo.

Outra razão que me fez desistir do envolvimento com música foi ter percebido o enorme erro que foi deixar de ser pai para ser colega de banda de meu filho. Percebi tarde demais que não consegui ser as duas coisas ao mesmo tempo e isto causou pequenos danos em nossa relação, em que pese o fato de , apesar de tudo,  hoje convivermos bastante bem.  (Nota de 2021: E estamos ainda muito bem).

Sinto que algo valeu a pena nisto tudo quando vejo meu filho como um músico reconhecido e de talento,  indo em frente  em sua carreira musical, com um disco lançado e produzindo outro, mas o custo de tudo foi muito alto para mim. E não me refiro a amizades perdidas. Se fossem amizades sinceras jamais se perderiam por motivos tão mesquinhos. (Nota de 2021: Essa também foi pra você, Zé...Mas I love you).

Eu e Stephen Ulich, meu filho.
Acredito que qualquer pessoa que já tocou comigo tem plenas condições de encontrar seu próprio caminho musical. (Nota de 2021: E tome indireta para Zé...)  A maioria, diga-se de passagem, até já encontrou. E, na maioria dos casos, não fui eu que indiquei caminho algum a eles. Eles mesmos que procuraram seu rumo, inclusive fazendo coisas completamente diferentes das que faziam quando tocavam comigo. Não tenho culpa se alguns se acomodaram em um passado do qual inevitavelmente fiz parte e não quero mais fazer. (Nota de 2021: Mais uma...)

Que cada um componha suas próprias canções, falando de si mesmo e de suas experiências, ou que procure alguém que as faça para ele, mas este alguém jamais serei eu de novo.  (Nota de 2021: Zé Mário, finalmente, está compondo...) O que eu tinha para dar, a minha contribuição para a cena rocker feirense, já foi dada.  Resumindo, o rock não me quer mais, nem eu quero  ele.  Posso mudar de ideia amanhã e gravar o disco que meu filho quer produzir para mim.  Mas, por enquanto, é isto e é assim que eu penso.

            (Complemento de 2021: Este texto foi escrito em um momento em que todos pensavam que eu que tinha implodido a Zelvis. E acho que, afinal de contas, fui eu mesmo. Hoje mantenho uma relação cordial com o meu ex-parceiro José Mário Pitombo e estamos reerguendo a nossa relação aos poucos. Agradeço muito a ele por tudo que vivemos juntos. As coisas boas, claro, porque as ruins fazem parte. Eu costumo dizer aos amigos que Stephen e Zé Mário são as únicas pessoas com quem eu voltaria a tocar e, por outro lado, aquelas com quem eu jamais tocaria novamente. Ano que vem a LP & Os Compactos e seu puxadinho, a Zelvis, completam 20 anos. Estou escrevendo a história da banda aqui mesmo neste blog e amanhã sai o segundo capítulo. Viva a LP, salve Zé, Stephen, Douglas, Sidarta, Ítalo, Josias e todos os que passaram pelo grupo nestas duas décadas. Ao final, isto é o que importa e o que se leva da vida).

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