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O triste fim de Renato Arnun.

     Que grande ironia! Viver quase 49 anos para morrer engasgado logo com um bagaço de laranja... Se eu soubesse que aquele seria o meu último dia de vida, eu nem teria ido trabalhar. Foi um dia duro aquele:  Passei a manhã tentando consertar uma máquina no trabalho, e foi bem estressante, por sinal. Pela tarde, bati o carro. Ao final do expediente, como sempre, o meu amigo Jorge apareceu na empresa e viemos conversando no caminho de casa.
     
    Meu amigo Jorge é uma espécie de amigo imaginário de carne e osso. Ninguém sabe quem ele é e de onde veio. Um dia apareceu no meu trabalho, puxou conversa, e nunca mais deixou de ir lá. Some e aparece como que por encanto. Conversamos sobre tudo, principalmente sobre a situação política do país.
    Na verdade,  nem sei se ele existe mesmo, tenho até um certo medo dele ser apenas um sintoma da minha esquizofrenia, mas o certo é que,  naquele dia fatal, ele estava comigo.  Cheguei em casa,  fui até a cozinha,  peguei uma laranja na fruteira e parti em quatro, como de costume. Separei a fruta da casca e levei à boca.  Acostumado a comer o bagaço, tarde demais percebi que era muito grande para ser engolido,  mas nunca imaginei que ficaria engasgado.
     Sem poder respirar, com o bagaço interrompendo o fluxo de ar,  corri para a sala,  onde estava meu amigo Jorge.  Jorge, em vão, tentou bater nas minhas costas. Chegou a enfiar o dedo minha goela adentro, mas tudo que ele fez para me salvar foi sem sucesso. Morri, afinal, nos braços de meu amigo Jorge, que, enquanto me abraçava, chorava compulsivamente. E foi assim, desta maneira tão inusitada quanto banal, que eu morri, encerrando quase cinco décadas de vida. 
   
    Confesso que achei meu velório muito divertido. Lá estava,  como sempre, o meu amigo Jorge, testemunha ocular da minha morte. Discreto, Jorge, como eu desconfiava, não era notado por ninguém. 
      Me surpreendi com a presença de alguns desafetos ilustres. Um sobrinho que me detestava, um ex-colega músico que havia rompido comigo pouco antes que eu morresse. E estavam com uma fisionomia realmente entristecida, para o meu mais completo espanto. Será que estavam tristes por não ter mais a quem odiar?
      Muita gente que eu não via faz tempo apareceu por lá. Fiquei satisfeito com o resultado. Nem todo show que eu fiz deu tanta gente assim. Se eu estivesse vivo, postaria algo no facebook sobre o assunto.
     
       Aliás, as manifestações no facebook foram um capítulo à parte. Um amigo jornalista paulistano, escreveu um longo texto sobre a minha pessoa em seu perfil.  Alguns dias depois dedicou boa parte da postagem em seu blog para falar de mim. Meu filho rearranjou uma música que deixei gravada em seus arquivos e postou com a minha voz guia mesmo. As carinhas chorosas se multiplicaram nos comentários. Mas ouvi meu filho comentando que ninguém fez download dela. Povo ingrato...
      Dois dias depois do meu sepultamento ninguém falava mais de mim nas redes sociais. Eu iniciava o meu natural processo de esquecimento. Mas meu amigo Jorge estava lá, sentado ao lado de meu túmulo, olhando fixamente para o horizonte. Jorge, este sim,  sentiu verdadeiramente a minha falta.
      Eu via Jorge ali parado, dia e noite,  e tinha vontade de mandá-lo ir embora, dar continuidade à sua vida, mas não,  Jorge não arredava o pé dali. Até que percebi que, ora vejam, eu podia me mover e até mesmo falar. Me aproximei do meu fiel amigo e, ao me ver, seu semblante se iluminou. Jorge me abraçou chorando de alegria e, por um momento, achei que estava sonhando ou que havia ressuscitado. Foi então que, finalmente, me dei conta que eu havia me tornado um espírito e que Jorge também não era desse mundo. Quer dizer, daquele. Aquele em que eu vivia antes de morrer.
     
       Meu amigo Jorge me ensinou que eu podia ir de um lado a outro. Visitei minha esposa e filha, que ainda dormiam. Minha mãe, triste, limpava a calçada, toda vestida de preto. Perguntei a Jorge se poderia ir a outra cidade, ou ainda, a outro país. Jorge me perguntou onde eu queria ir. E fomos embora. E foi assim que, depois de morto, ao lado de Jorge, eu conheci o mundo.
      Um ano depois, retornei à minha cidade para ver como as coisas estavam. Minha filha parecia estar mais séria, mais madura. O meu filho, este continuava levando a vida normal dele. Minha mãe, a cada dia mais triste, buscava forças para continuar vivendo.  Já  minha esposa, para minha completa surpresa, fui encontrar maquiada, alegre, dançando animadamente com alguém que eu não conhecia, em uma festa regada a muita cerveja e samba. Enfim, me conformei; eu não era tão inesquecível quanto imaginava. Enquanto me afastava, ao lado do onipresente Jorge, ainda ouvi, ao fundo um velho samba de Zeca Pagodinho rolando sem parar na vitrola:
        "-Sobrou pra mim, o bagaço da laranja"...

   
     

      

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