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De cima do baú: Stephen Ulrich - "Sorte de Principiante" (2013)

“Sorte de Principiante” é um nome forte, sonoro e inventivo, e, sem dúvida, tem aquele “o que”, aquele charme que torna os primeiros discos de grandes artistas inesquecíveis, mas não faz jus ao conteúdo do CD lançado pelo músico baiano Stephen Ulrich, em 2013. O disco teria sido melhor denominado se chamasse “Convicção de veterano em um principiante”, tamanha a segurança e a atitude envolvidas. 

Mas o CD se chama mesmo “Sorte de Principiante”, que também é o nome da ótima faixa em que Stephen divide os vocais com Fábio Cascadura vocalista da banda baiana Cascadura, em uma participação especial. 

Stephen Ulrich estreou na música em 2003, como baixista da banda baiana LP & Os Compactos, passando a guitarrista logo em seguida e, finalmente, se lançando em carreira-solo, exatos dez anos depois.

Se segurança e atitude sobram no álbum de estreia de Ulrich, também transparece um frescor de calouro e até mesmo uma certa ingenuidade naive, como no primeiro disco dos Beatles. Aliás, ecos de Beatles são ouvidos aqui e ali até que em “Doors e Alguns Litros”, a garrafa derrama e Stephen cita a clássica “Strawberry Fields Forever”. Vale ressaltar que, numa breve alusão a Paul McCartney e alguns outros multi-instrumentistas, o álbum foi completamente gravado e produzido pelo jovem artista baiano, sendo que, somente com o  disco já gravado o restante da banda veio a se formar,  dando ao bolo a cereja que estava faltando.

O CD abre com a vibrante e positiva "Se você precisar", que entra potente após uma breve introdução jazzística. Uma escolha acertadíssima para uma canção de abertura. "Sorte de Principiante" é um hard rock antenado com o moderno rock baiano e conta, como já foi dito, com a participação do também baiano Fábio Cascadura. Em "Apenas bons amigos", a melhor canção do álbum, o ouvinte mais atento tem a impressão de que Stevie Wonder começará a cantar "Yester me, yester you, yesterday" a qualquer momento. 

"Rocky" quebra um pouco a trinca de excelentes canções mas não compromete. "A falta" é uma das melhores canções pop já escritas, com ecos do rock AOR, ou "album oriented rock", norte-americano. "Sempre ouvindo não" é uma canção de impressionante maturidade para alguém tão jovem e contém uma melodia de grande beleza. "O tempo é nosso guia" tem ecos setentistas e "Enquanto eu estiver na sua rua" segue a mesma linha de "Sempre ouvindo não".

"Um cara só", ainda que não comprometa o resultado final, é inferior ás outras canções do disco até esta altura, sendo literalmente salva pelo gongo, ou melhor, pelo refrão. "Doors e alguns litros" é um tributo ás principais influências de Stephen Ulrich, a saber, Beatles, Stones e The Doors. Dizem, ou melhor, eu digo, que todo grande disco tem uma música ruim. Um disco todo bom enjoa. E este "Sorte de Principiante" tem a sua música "intragável" também. Trata-se da anti-penúltima faixa, chamada "Já estou indo", mas até esta encontra a sua salvação no excelente, porém, curto, solo de guitarra da metade da música. Mas, tal qual um bônus redentor, "A musa e o Orfeu" surge como uma espécie de sobremesa do prato principal. Porém, é "Páreo", a mística 13ª faixa do disco, a faixa verdadeiramente dispensável. Não que seja uma canção ruim, mas quebra completamente a unidade do trabalho.

Stephen Ulrich  classifica seu estilo musical como “Power-Pop”, mas o que se ouve ao longo do disco é uma espécie de “power-folk”, algo como Bob Dylan sendo acompanhado por uma banda New Wave. Não a toa, outros ecos, agora da banda americana Television são ouvidos aqui e ali. Mas que ninguém pense que ao escutar “Sorte de Principiante”, o audiófilo irá encontrar um mero rascunho dos artistas citados. Stephen Ulrich foi absolutamente original nas músicas que compôs. Ao final das 13 faixas, a impressão que fica é que a sorte foi absolutamente nossa.

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