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Um disco por ano de vida: The Doors - "Morrison Hotel" (1970)

"Morrison Hotel" ou, como se chamava originalmente, antes de ter o longo  título abreviado, "Morrison Hotel/Hard Rock Cafe", não é o terceiro e sim, o quinto disco de carreira da banda californiana The Doors. Mas, funciona perfeitamente como um terceiro disco, com todas as mudanças de direcionamento que envolvem uma banda que chega ao terceiro trabalho.

Tendo gravado quatro discos no espaço curto de dois anos, algo bastante comum naqueles tempos de petróleo barato - matéria prima do vinil - , criatividade em alta e bonança financeira, a banda parecia ter chegado em uma encruzilhada artística. Com o vocalista Jim Morrison respondendo processo criminal por obscenidade - teria mostrado o pênis à plateia em alguns shows - e correndo o risco de passar uma temporada na cadeia, o jeito era gravar o máximo de apresentações possíveis para o lançamento de um disco ao vivo que cobriria o período de férias forçadas pelo qual Morrison fatalmente passaria.

Tantos shows ao vivo deu à banda a "cancha" que faltava para que fizessem um disco "de rítmo", que, aliado ao bom blues que os Doors já praticavam com esmero, transformariam Morrison Hotel em um disco completamente diferente do que fora feito antes e seria feito depois pelo grupo. 

Não que o lp fosse completamente novo. Algumas das canções, como Indian Summer e Waiting For The Sun, eram outtakes (sobras) de discos anteriores. Mas havia, e sempre houve, uma unidade nas canções escolhidas para forjar aquele quinto disco com cara de terceiro. Eram canções de ares mais pop, menos compromissadas com a psicodelia e, enfim, o efeito negativo que o sucesso abissal de Light My Fire trouxe para a banda parecia definitivamente exorcizado.

A escolha do título foi feita a partir da descoberta, pelo tecladista Ray Manzarek, de um pequeno hotel em Los Angeles com este nome. A famosa foto de capa foi feita "na surdina", após uma saída  repentina do gerente do hotel, que não havia autorizado a foto. A outra foto, da contra capa,  trazia, igualmente, a frente de um bar que, hoje, não existe mais. A atual rede de bares  Hard Rock Cafe teve seu nome justamente inspirado no estabelecimento que aparece no disco dos Doors e lhe dá  nome, mas não tem absolutamente nada a haver com ele.

O álbum começa com um rhythm'n'blues pesado que viria a se tornar um clássico da banda. "Roadhouse Blues" seria, pelos anos afora, um cartão de visita para a sonoridade da banda e conta com a presença de John B. Sebastian, do Lovin' Spoonful tocando harmonica. "Waiting For The Sun" foi deixada de fora do disco homônimo e aproveitada como segunda faixa de Morrison Hotel, se tornando outro clássico instantâneo. 

A terceira faixa do lado A, "You Make Me Real", é urgente, de andamento corrido e soa como um esporro. "Peace Frog" é um funk que questiona as então recentes acusações de prática de atos obscenos que recaíram sobre Jim Morrison. "Blue Sunday" é preguiçosa como o dia ensolarado e triste de domingo que sugere a letra, embalada por uma belíssima melodia. "Ship Of Fools" encerra o lado A segurando o pique iniciado com "Roadhouse Blues". Um lado A fechadinho e perfeito.

No lado B, como em todo bom lado B, começam as esquisitices. "Land Ho!" é uma canção estranha, de andamento estranho, mas absolutamente contagiante. Lá pelo meio da faixa, cresce em melodia, agregando valor ao que já estava excelente. "The Spy", um blues lento, comum, embora climático, quebra a sequencia de boas canções, mas prepara terreno para a absolutamente sensacional "Queen Of The Highway", disparadamente o que o melhor já foi feito pelos Doors em seus passeios pelo pop.  "Indian Summer", um take não aproveitado do primeiro disco, não compromete mas é perfeitamente dispensável. "Maggie McGill" não acrescenta nada de novo ao que já foi mostrado até aqui, mas tem seu charme, encerrando Morrison Hotel com dignidade e  respeito.

Após este disco, Jim Morrison se envolveria cada vez mais com as drogas. A banda ainda lançaria Absolutely Live, resultado das gravações feitas para cobrir uma possível ausência de Jim, e o canto do cisne LA Woman. Morrison abandona os ensaios do que seria o sétimo disco e voa para Paris, onde vem a falecer, oficialmente de ataque cardíaco. Os Doors ainda arriscariam com Other Voices e Full Circle, discos sem brilho e com apenas uma única canção digna de nota, Ship With Seals, lançada ainda em 1971, três meses após a morte de Jim Morrison.






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