Uma canção do poeta e compostor norte-americano Shel Silverstein, gravada originalmente pela banda americana Dr. Hook e eternizada na voz da inglesa Marianne Faithfull trazia versos contundentes sobre uma mulher quarentona que, finalmente percebera, não seria nada demais na vida. Um dos versos de The Ballad Of Lucy Jordan afirmava: "Com a idade de 37, ela finalmente se deu conta que não andaria pelas ruas de Paris em um carro esporte com o vento esvoaçando os seus cabelos". Diferente de Lucy Jordan, eu não demorei tanto tempo para me dar conta disso e logo me preparei para a vida comum e cotidiana que seria o mais provável que eu teria a viver nestes anos todos.
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Shel Silverstein |
Há quem diga que me inveje e eu realmente não consigo entender como e porque. Me dizem que eu consigo gerir a minha vida com uma constância e estabilidade que, segundo estes amigos, "chega a ser irritante". Afirmam não querer me perguntar o segredo porque não sabem se realmente o que eles queriam para si seria uma minha vida sem muitas reviravoltas como a minha é.
Talvez seja este o problema. O que eles não querem, eu sempre quis. Tenho pavor de, algum dia, me ver sem controle da minha própria vida e, por isto, a controlo tal qual um ditador comanda o país que dirige. Nunca usei drogas, por exemplo. Poderia muito bem ter usado, mas a verdade é que nunca fumei um baseado, nunca cheirei uma linha de cocaína ou tomei algum comprimido suspeito. Já enchi a cara algumas vezes, mas o fiz absolutamente por estar muito feliz. O controle ditatorial que mantenho sobre mim mesmo me impede de beber estando triste ou chateado.
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Dr. Hook |
Também, sinceramente, acho contraproducente demais ter que me viciar em algo para depois ficar limpo daquilo. Minha mente sistemática de virginiano não consegue entender porque tenho que enfiar o pé na jaca apenas para ter que limpar o pé depois. E jaca, diga-se de passagem, é visguenta demais.
Acho que sempre soube que teria uma vida comum. Não seria uma estrela do rock ou um escritor de sucesso ou um profissional bem sucedido demais. Ou até, quem sabe, por mera covardia e acomodação de não tentar, não tentei, e me tornei uma espécie de Lucy Jordan feliz. Sem bônus, é verdade, mas também sem ônus. Me sinto bem pelas coisas que, muitas vezes, os que estão à minha volta consideram pequenas demais para fazê-los feliz.
Um amigo próximo é viciado em cocaína e está, mais uma vez, em recuperação. Digo que é porque ninguém deixa de ser, mas ele está sim, tentando se livrar e tem conseguido. Inúmeras vezes sua vida escoou pelo ralo por conta do vício. Mas ele tem uma família. E que família! Filhos que o amam, uma mulher descomunal, digna de ser chamada esposa. Não o invejo porque hoje tenho cá a minha também, mas confesso que sim, em outros tempos, já o invejei por isto. Ela está lá, firme, suportando tudo, sempre disposta a recomeçar, a dar mais uma chance, só Deus sabe até quando.
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Marianne Faithfull |
E o que pode ser mais importante que uma família? Amigos? Amigos de noitada, de cheiradas pela madrugada afora? Ora, eu tenho bons amigos que cabem nos dedos de uma única mão e, ainda assim, jamais os trocaria pela minha família. E olha que são amigos com "A" maiúsculo.
Eu até gostaria de ser mais próximo deste "quase amigo", mas ele nunca foi, de verdade, muito próximo de mim. Já me importei muito com isto mas hoje, sinceramente, não ligo mais. Aliás, como dizem vulgarmente, "liguei o foda-se" faz muito tempo para quem não aceita a minha amizade sincera e sempre prefere a companhia de gente contagiosa. Mas gosto dele e continuo torcendo por ele e por sua família. Que ele se dê conta rápido da sua porção Lucy Jordan, antes que sua vida termine sem que ele possa dizer que foi feliz.
Porque a felicidade está bem ali, ao redor dele, ao redor de nós, ao alcance da sua e da nossa mão. Como eu sempre fiz questão de manter a minha felicidade, Lucy Jordan que sempre fui e quis ser.
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