“Odessey and Oracle” permaneceu
esquecido em uma gaveta qualquer da CBS
até o produtor Al Kooper colocar as mãos nas fitas master do álbum. Impressionado com o que ouviu, Kooper convenceu os
diretores da gravadora a por o disco no mercado, o que foi aceito, sem muito entusiasmo, devido ao enorme
prestígio do produtor. Lançado quase um ano depois de ser gravado, sem nenhuma
divulgação, sem sequer uma banda ainda na ativa para sustentá-lo, com as
esperadas vendas sofríveis, o disco naufragou e foi novamente engavetado.
Inexplicavelmente, em março de 1969, já
contando quase dois anos da gravação de “Odessey and Oracle” e um ano do lançamento
fracassado, a canção “Time Of The Season” passou, subitamente, a tocar no rádio.
Diz a lenda que um DJ, achando curiosa a semelhança dos arranjos de “She’s Not
There”, primeiro sucesso do grupo, e a citada “Time Of The Season” resolveu
tocar as duas, uma após a outra. Foi o suficiente para que os ouvintes inundassem a emissora com pedidos para que a
canção fosse repetida, o que acabou criando uma espécie de “efeito borboleta”.
Em pouco tempo, a CBS foi obrigada a lançar, às pressas, um single com “Time Of
The Season” no lado A e “Friends of Mine” no lado B. O single vendeu 2 milhões
de cópias, um número jamais alcançado pela banda enquanto esteve na ativa.
Abro aqui um parêntese para dar meu testemunho de como conheci os Zombies. Uma
tarde de 1987, passeando pelos shoppings de Salvador, onde eu morava, encontrei
a trilha do filme “1969”, aliás um filme a que nunca assisti. A razão de ter
comprado o disco foi a versão do grupo Pretenders para “Windows Of The World”, outro clássico de 1967, gravado
originalmente por Burt Bacharach.

“Odessey and Oracle” abre o seu lado A
com as boas vindas de “Care of cell 44”, uma das mais belas canções sobre
introspecção já escritas. A letra, como aliás, ocorre em todas as faixas do
disco, é pura poesia, e o arranjo, com
um “que” de Beach Boys, é um caso a parte. A seqüência, com a já citada “A rose for
Emily” e “Maybe After He’s Gone” prende o ouvinte com melodias simples e
arranjos complexos e climáticos, cheios de vocalizações e refrões pegajosos.
“Beechwood Park” deixa a impressão de ter
sido uma canção a qual foi dada menos atenção do que ás restantes, mas não faz
feio, embora, sem dúvida, seja uma faixa com menor brilho que as outras. Já “Brief Candles” é uma delicada peça de pop barroco onde a característica da
banda de ter refrões que “explodem” no ouvido fica bem marcante. “Hung Up on a
Dream” encerra o lado A sem deixar a bola cair. Quem ouviu “Odessey and Oracle”
pela primeira vez em LP, certamente virou o disco ansioso para ouvir o
que tinha do outro lado.
“Changes”, com sua introdução barroca e sua batucada (sim,
batucada), não poderia ser mais instigante. Uma saudação ao sol e ao verão em
um disco nada solar. ”I Want Her She Wants Me” é parecida demais com a faixa de
abertura para que isto não seja notado, mas não compromete o resultado final.
“This Will Be Our Year” é uma tocante
canção de amor, a única lançada em mono, da forma como a banda concebeu
originalmente o disco. Mais tarde seria, ela também, convertida em estéreo, nas
edições comemorativas do lançamento do álbum.
“Butcher’s tale” é uma faixa sombria
sobre a primeira guerra mundial e a que, de fato, encerra “Odessey and Oracle”,
enquanto um projeto fechado. As faixas
seguintes, “Friends Of Mine” e “Time Of The Season”, destoam enormemente do
restante do disco e seu posicionamento inevitável como as duas últimas do lado
B, uma exigência dos músicos, foi muito apropriada e feliz.
O tempo colocou “Odessey and Oracle” no
lugar que o disco merece estar, entre as poucas e verdadeiras obras-primas da
música pop. Os Zombies, fazendo jus ao nome, voltariam dos mortos em pleno
século XXI para aproveitar a súbita fama nunca alcançada em vida.
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