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Um disco por ano de vida: “Odessey and Oracle” – The Zombies (1968) - Parte II

“Odessey and Oracle” permaneceu esquecido em uma gaveta qualquer da CBS até o produtor Al Kooper colocar as mãos nas fitas master do álbum. Impressionado com o que ouviu, Kooper convenceu os diretores da gravadora a por o disco no mercado, o que foi aceito,  sem muito entusiasmo, devido ao enorme prestígio do produtor. Lançado quase um ano depois de ser gravado, sem nenhuma divulgação, sem sequer uma banda ainda na ativa para sustentá-lo, com as esperadas vendas sofríveis, o disco naufragou e foi novamente engavetado.

Inexplicavelmente, em março de 1969, já contando quase dois anos da gravação de “Odessey and Oracle” e um ano do lançamento fracassado, a canção “Time Of The Season” passou, subitamente, a tocar no rádio. Diz a lenda que um DJ, achando curiosa a semelhança dos arranjos de “She’s Not There”, primeiro sucesso do grupo, e a citada “Time Of The Season” resolveu tocar as duas, uma após a outra. Foi o suficiente para que os ouvintes  inundassem a emissora com pedidos para que a canção fosse repetida, o que acabou criando uma espécie de “efeito borboleta”. Em pouco tempo, a CBS foi obrigada a lançar, às pressas, um single com “Time Of The Season” no lado A e “Friends of Mine” no lado B. O single vendeu 2 milhões de cópias, um número jamais alcançado pela banda enquanto esteve na ativa.

Abro aqui um parêntese para dar meu testemunho de como conheci os Zombies. Uma tarde de 1987, passeando pelos shoppings de Salvador, onde eu morava, encontrei a trilha do filme “1969”, aliás um filme a que nunca assisti. A razão de ter comprado o disco foi a versão do grupo Pretenders para “Windows Of The World”, outro clássico de 1967, gravado originalmente por Burt Bacharach.

Ouvindo o resto do disco me deparei com aquela canção esquisita e absolutamente fascinante que é “Time Of The Season”. Porém, só vim mesmo a me aprofundar na obra do grupo, e, efetivamente, descobrir “Odessey and Oracle”, na era do MP3. O mais curioso é que, por pouco,  “Time Of The Season” quase não entrava no segundo disco dos Zombies. O vocalista Blunstone não gostou da faixa, que acabou sendo cantada por Rod Argent.  Outra curiosidade é que a canção que ocupa o lado B, “Friends Of Mine”, era uma despretensiosa homenagem aos casais amigos da banda, citados na letra. No Brasil, a melodia da canção foi surrupiada por Raul Seixas para a sua “Se ainda existe amor”, sucesso na voz de Jerri Adriani.

“Odessey and Oracle” abre o seu lado A com as boas vindas de “Care of cell 44”, uma das mais belas canções sobre introspecção já escritas. A letra, como aliás, ocorre em todas as faixas do disco, é pura poesia,  e o arranjo, com um “que” de Beach Boys, é um caso a parte.  A seqüência, com a já citada “A rose for Emily” e “Maybe After He’s Gone” prende o ouvinte com melodias simples e arranjos complexos e climáticos, cheios de vocalizações e refrões pegajosos.

“Beechwood Park” deixa a impressão de ter sido uma canção a qual foi dada menos atenção do que ás restantes, mas não faz feio, embora, sem dúvida, seja uma faixa com menor brilho que as outras.  Já “Brief Candles” é uma delicada peça de pop barroco onde a característica da banda de ter refrões que “explodem” no ouvido fica bem marcante. “Hung Up on a Dream” encerra o lado A sem deixar a bola cair. Quem ouviu “Odessey and Oracle” pela primeira vez em LP, certamente virou o disco ansioso para ouvir o que tinha do outro lado.

Changes”, com sua introdução barroca e sua batucada (sim, batucada), não poderia ser mais instigante. Uma saudação ao sol e ao verão em um disco nada solar. ”I Want Her She Wants Me” é parecida demais com a faixa de abertura para que isto não seja notado, mas não compromete o resultado final. “This Will Be Our Year”  é uma tocante canção de amor, a única lançada em mono, da forma como a banda concebeu originalmente o disco. Mais tarde seria, ela também, convertida em estéreo, nas edições comemorativas do lançamento do álbum.

“Butcher’s tale” é uma faixa sombria sobre a primeira guerra mundial e a que, de fato, encerra “Odessey and Oracle”, enquanto um projeto fechado.  As faixas seguintes, “Friends Of Mine” e “Time Of The Season”, destoam enormemente do restante do disco e seu posicionamento inevitável como as duas últimas do lado B, uma exigência dos músicos, foi muito apropriada e feliz.

O tempo colocou “Odessey and Oracle” no lugar que o disco merece estar, entre as poucas e verdadeiras obras-primas da música pop. Os Zombies, fazendo jus ao nome, voltariam dos mortos em pleno século XXI para aproveitar a súbita fama nunca alcançada em vida.




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