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Há sonhos que engordam...

O que panquecas, donuts, sonhos, bolas de berlim, Portugal, Brasil, Alemanha e Estados Unidos têm em comum? Teria como associar tudo isto em alguma espécie de denominador comum? Claro que tem. E este denominador comum é delicioso e trata-se do nosso popular e brasileiríssimo "sonho", aquela bomba calórica frita e feita de sobras de massa de pão e muito, mas muito mesmo, doce de leite ou de goiaba, a depender do lugar de sua produção. Eu disse "brasileiríssimo"? Bem, a história não é assim como você pensa que conhece.

Enfim, o que eu pretendo aqui é contar a história deste doce tão popular no Brasil e já vou adiantando que o sonho fala alemão por nascença. Talvez você nem saiba, mas o arroz grego não se chama arroz grego na Grécia - acreditem, lá eles chamam o prato de Vrazilias Risoto, ou "risoto brasileiro", provavelmente por conta de uma deliciosa e bem humorada vingança culinária. Mas como aqui o assunto é sonho, o doce, explico agora a associação com o arroz grego que não é grego.

Surgido em Berlim, na Alemanha, no início do século XIX, o doce se chamava originalmente "pfannkucher", ou seja, bolo de frigideira. Era, e ainda é, feito com massa de pão integral adocicada e fritada. Daí o nome. Acontece que havia uma outra versão salgada da iguaria com o mesmo nome, e que ficaria conhecida no resto do mundo como "panqueca", uma aproximação da pronúncia de "pfannkucher". Então mudou-se o nome para Berliner Pfannkucher no resto do país, para poder diferenciar das panquecas salgadas, iguais àquelas que conhecemos.

Era um doce de consumo das classes mais pobres. Quando passou a ser vendido em padarias, as panquecas de berlim passaram a se chamar apenas berliners (berlinenses) e ganharam um recheio. Em Berlim, porém, continuaram a ser chamadas apenas de panquecas, para em seguida serem batizadas, quando começaram a ser comercializadas em larga escala, de "doughnuts"..



Com o doce ganhando a Europa, os berliners chegaram a Portugal, onde  ganharam o nome de "bolas de Berlim", pelo qual são conhecidos até hoje. É aí que o nosso abrasileirado "sonho" se encontra com seu primo português, o "sonho", um doce muito consumido no natal na Lusitânia. Acontece que o sonho português é nada menos que a nossa velha conhecida, a "rabanada". 


Com a chegada "em massa" - perdoem o terrível trocadilho - de padeiros portugueses no início do século XX, vieram também os sonhos e as bombas de Berlim. Conta a lenda que, um dia, ao expor os dois doces para venda, um balconista desavisado trocou as placas e  o que era uma coisa virou outra. Como estava vendendo muito bem, o esperto padeiro tuga preferiu não mexer no que estava dando certo e a bomba berlinense virou "sonho" na padaria dele e , futuramente, no resto do Brasil. Porque o sonho português não teve a mesma sorte com o nome "bomba de Berlim" é um mistério, mas o fato é que continuou sendo um doce natalino em terras tupiniquins, apenas com o novo nome de "rabanada".

A bomba de Berlim também chegaria nos Estados Unidos com o nome de "doughnuts", logo abreviada para "donuts". Se você já assistiu algum filme policial norte-americano, já viu os cops se deliciando com estranhas rosquinhas. Apois, agora você também sabe o gosto que tem. É o nosso mesmo sonho, porém com um buraco no meio em vez do recheio. Lá, como eu disse, é uma iguaria fartamente apreciada por policiais. E alguns bandidos também.


O sonho se tornou popular no Brasil inteiro a partir do Rio de Janeiro, mas só aqui ganhou este nome. Na Argentina e Uruguai chamam-se exatamente "bolas de Berlim" e no Chile, "berlines". De qualquer forma, sem o batismo acidental brasileiro seria impossível fazer aquela velha piada em que John Lennon é padeiro e, ao ser inquirido sobre ter o doce a venda no estabelecimento, faz o sinal de paz e amor e diz: - "O sonho acabou". Bom apetite e vamos sonhar, antes que o pesadelo do aumento de peso bata à porta!


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