Em seu livro "An A-Z of hellraisers: A comprehensive compendium of oustrageous insobriety", o crítico musical Robert Sellers revelou ao mundo a existência, durante os anos 70, de uma confraria de beberrões famosos, fundado pelo músico norte-americano Alice Cooper, chamado de Hollywood Vampires. Do clube fizeram parte, entre outras celebridades, Bernie taupin, parceiro de Elton John, o próprio Elton John, Ringo Starr, John Lennon, Harry Nilsson, John Belushi e Keith Moon, entre muitos outros. O clã costumava se reunir no Rainbow Bar, na Sunset Boulevard, em Los Angeles, e as "reuniões" viravam a madrugada, contando muitas vezes com o strip-tease de garotas de programa vestidas de freiras ou de Hitler.
Em uma entrevista ao site The Quietus, em 2009, Alice Cooper confirmou que tudo que Sellers havia contado em seu livro era a mais pura e cristalina verdade, e lamentava que alguns dos membros daquele clube não sobreviveram, como ele mesmo, se tornando abstêmios e levando uma vida menos desregrada. Ainda hoje há, no Rainbow Bar, uma placa, onde se lê "lar dos Hollywood Vampires".
O super-grupo de rock Hollywood Vampires surgiu como uma descompromissada homenagem aos integrantes da confraria homônima que já se foram, notadamente os que, como Keith Moon, faleceram por conta dos próprios excessos etílicos. Mas não se trata de uma homenagem soturna ou moralista e sim, de uma celebração aos amigos que não estão mais aqui.
O grupo tocou pela primeira vez, na metade de setembro, ao vivo no Roxy Theatre , em Los Angeles, seguindo para as apresentações no Brasil, no festival Rock In Rio. No país com a clássica falta de informação vigente, eles se transformaram na "banda de Johnny Depp", ator e músico bissexto que também participa da formação. Completam o grupo, no disco, Joe Perry, guitarrista do Aerosmith, Matt Sorum e Duffy McKagan, ex-Guns'n'Roses e Tommy Enriksen, do Warlock.

O álbum abre com o ator Christopher Lee declamando uma passagem do livro Dracula, de Bram Stoker. Lee, que sempre se aproximou da música pop, participando de discos de artistas como Michael Jackson e Iron Maiden, morreria alguns dias depois de ter feito a gravação. Segue com "Raise the dead", composição da banda em memória dos amigos mortos, e uma furiosa cover de "My Generation", do The Who. "Whole Lotta Love" presta tributo a John Bonham, outra vítima da bebedeira e tem a participação de Brian Johnson, do AC-DC, nos vocais. "I got a line on you" é um original da banda Spirit e deve haver alguma piada interna no fato de uma música deste grupo seguir a uma do Led Zeppelin, por conta das acusações de plágio feitas um ao outro por causa da introdução de "Stairway To Heaven".
"Five to one/Break On Through" presta reverência aos Doors, enquanto o músico Harry Nilsson é homenageado com outro medley, "One/Jump Into The Fire". "Come and Get it", de Paul McCartney, e com a participação do próprio, antes eternizada pelo Badfinger, é o calcanhar de Aquiles do disco: a versão é bastante inferior ao original. Mas a correta e vibrante cover de "Jeepster", de Marc Bolan, equilibra o disco novamente e seguem covers bacanas de John Lennon ("Cold Turkey"), Jimmi Hendrix ("Manic depression") e Small Faces ("Ytchycoo Park"). Complementam o álbum um medley com "School's Out", do próprio Alice Cooper (homenagem a David Coverdale?), e "Another Brick in The Wall", do Pink Floyd. A última faixa, "My dead drunk friends", como o próprio nome entrega, é uma outra homenagem, no atacado, a todos os membros mortos que já passaram pelos Hollywood Vampires, no caso a confraria etílica.
"Hollywood Vampires" é um disco que todo fã de rock and roll "clássico" deve ter na prateleira. Se é bom, se é ruim, não importa. Boa parte da história do rock está contada ali. E é só isto que vale. Mas o disco é bom, sim. Será tocado no meu player de mp3 até o fim dos meus dias.
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