Pular para o conteúdo principal

DISCOS DE VINIL E ESCOVAS DE DENTES USADAS.

Uma escova de dentes é um objeto verdadeiramente pessoal e intransferível. Certos itens de uma coleção de discos também. Da mesma forma que não há ninguém maluco o suficiente para compartilhar uma escova (ou há?), quem coleciona discos sempre terá algumas ‘escovas usadas” entre seus títulos.

O colecionador passa anos garimpando item a item, comemorando cada título raro adquirido, sonhando que seus filhos herdarão e cuidarão da sua pequena ou grande coletânea, mas, no fim, sua coleção não passa de um amontoado de escovas de dentes usadas.

Claro que não estou falando das coleções de discos que ultrapassam o senso estético e descambam para a comercialidade pura e simples. Há coleções e coleções. Não falo aqui dos ajuntamentos em que os colecionadores adquirem itens raros, discos fora-de-catalogo ou edições limitadas. Me refiro aos colecionadores verdadeiramente apaixonados, que amontoam nas prateleiras apenas o que gostam. Estes sim, colecionam algumas escovas de dentes gastas.

O
colecionar apaixonado agrega valor sentimental a um determinado disco e será capaz de pagar uma pequena fortuna por algo que, para qualquer outra pessoa, não tem o menor valor. E, certamente, pedirá ao seu filho ou filha que cuide bem do seu pequeno tesouro. Mas o seu herdeiro só pensará em se livrar o mais rápido possível de toda aquela tralha amontoada. Procurará pessoas excêntricas o suficiente para comprar escovas de dentes já utilizadas e acabará com o sonho ilusório que embalou a vida de seu genitor.

A não ser, claro, que o filho também seja um colecionador apaixonado. Mas geralmente, não é. E se for, terá suas próprias paixões fonográficas e, ainda assim, enxergará na coleção herdada muitas e muitas escovas de dentes que não lhe servem.

Lembro de, muitos anos atrás, visitar um amigo que gostaria que eu visse alguns títulos da coleção de discos de seu pai recém-falecido. Me interessei por um vinil mono, novinho e com a capa tipo envelope plástico original, de “For Ladies Only”, do Steppenwolf. O meu amigo segurou o disco, olhou fixamente para a capa, vi uma lágrima escorrer discretamente do seu rosto, enquanto ele me dizia:
- Este era um dos discos preferidos do velho...Cinco reais tá bom para você?

Levei para casa aquela escova usada de outra pessoa que agora me pertencia. De alguma forma, o disco também se tornou uma escova usada para mim. Mas, ainda que eu o tivesse herdado, jamais teria para mim o mesmo valor sentimental que teve para o pai do meu amigo.

Esta foi uma das razões pelas quais troquei meus discos por arquivos digitais. A maior parte dos meus LPs  não passariam mesmo de escovas usadas para outras pessoas. Quase todos eles têm uma história que só eu sei contar. E que só interessa a mim. Que sejam apagados por não fazerem mais sentido para os outros do que para mim mesmo. Já que, um dia, serei “formatado”, que a música que eu gosto e que é a trilha sonora da minha vida venha a ser formatada também. Afinal, sempre se pode aproveitar o notebook e o HD externo. Minhas sensações e experiências musicais, não.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Porque não existem filas preferenciais nos EUA.

Entrei em contato com um amigo norte-americano que morou por muitos anos no Brasil e o questionei sobre a razão de não haver filas preferenciais nas lojas norte-americanas. Ele me respondeu que não havia apenas uma mas várias razões. Uma delas é legal, porque é anticonstitucional. A enxutíssima constituição dos Estados Unidos simplesmente proíbe que determinado grupo social tenha algum direito específico sobre outro. Ou todos têm ou ninguém tem. Então, lhe questionei sobre as ações afirmativas na área de educação. Ele me respondeu que as ações afirmativas seriam constitucionais porque serviriam justamente para nivelar um grupo social em desigualdade aos outros. O que não seria, segindo ele, o caso de gestantes, idosos e deficientes físicos. A segunda razão seria lógica e até mesmo logística: Uma fila preferencial poderia ser mais lenta do que a fila normal e acabar transformando um pretenso benefício em desvantagem. Isto abriria espaço para ações judiciais no país das ações judic

Terra de Anões

Eu hoje estava ouvindo no meu smartphone, enquanto caminhava, aquela música dos Engenheiros do Hawaii chamada "Terra de Gigantes" em que um dos versos afirma que "a juventude era uma banda em uma propaganda de refrigerantes". Criticava-se a alienação dos jovens. E a maioria de nós éramos os jovens, por sinal. Mas o que tínhamos? Tínhamos internet? Tínhamos Google? Tínhamos acesso quase que instantâneo a toda a história da humanidade, a que passara e a que estávamos vivendo? Que culpa tínhamos de sermos alienados se não tínhamos a informação? Pois é, não tínhamos nada. E, ainda assim, éramos a banda na propaganda de refrigerantes. Como também disse o mesmo compositor, éramos o que poderíamos ser. Pelo menos, errados ou certos, éramos a banda. E hoje, com toda a informação em suas mãos, o que os jovens se tornaram? Se tornaram um bando em uma propaganda de refrigerantes. Gente que se deixa iludir por truques "nível fanta" em vez de tentar consumir

NOS TEMPOS DA BRILHANTINA.

      T em filme que envelhece bem, permanecendo um clássico muito tempo após ser lançado, ainda que seja, ao menos a princípio, datado. Um exemplo é o filme Blues Brothers ("Os Irmãos Cara-de-Pau").  Lançado para capitalizar o sucesso do quadro de Jim Belushi e Dan Akroyd no programa Saturday Night Live , a película acabou alcançando dimensões muito maiores do que a originalmente planejada, se tornando um sucesso mundial e provocando um renascimento (ou surgimento) do interesse pelo rhythm and blues e pela soul music entre os jovens e apreciadores de música em geral. O utros são tão oportunistas - ou aparentam ser - que, desde o lançamento, são considerados lixo,  trash-movies . Muito criticados no momento em que ganharam as telas dos cinemas, adquirem respeito e alguma condescendência com o passar dos anos. O exemplo ideal deste tipo de filme seria Saturday Night Fever , o nosso "Embalos de sábado à noite". Revisto hoje em dia, seu simplismo e aparênc